21.1.18

A VIDA É...UM COMBOIO - PARTE XI




- Porque é que havia de ter? – Perguntou arqueando uma sobrancelha. Só não sei muito bem como funcionam as coisas entre esta empresa e a vossa firma. Recebi uma visita em Viena, de alguém que se apresentou como estando mandatado pela fossa firma, para me encontrar e entregar uma carta, na qual o senhor me informava da morte do meu tio, de que eu era o seu herdeiro, e devia apresentar-me na firma, onde numa reunião me seria lido o testamento, e me poriam a par de todas as questões jurídicas. Meus pais morreram muito jovens, e meu tio que assumiu a minha educação, fez-me cursar gestão e contabilidade, coisa para a qual na época não tinha nenhuma inclinação. Pelo que quando acabei o curso e ele me entregou o pouco que meus pais me tinham deixado, comprei uma moto e parti à aventura. Como tal deve compreender que não saiba como meu tio geria a empresa, que não tivesse nenhuma noção do que ela crescera, e que pensasse que meu tio tivesse aqui mesmo nos escritórios, os seus advogados, e não que a empresa estivesse a esse nível entregue a uma outra empresa.
- E o senhor tenciona fazer isso?- Perguntou Carlos
- O quê?
- Quebrar o contrato com a nossa firma, e trazer aqui para os seus escritórios, um ou mais advogados da sua confiança, - respondeu Amélia.
Paulo sorriu, e o seu rosto suavizou-se
- Volto a repetir-me. Porque havia de o fazer, se as coisas têm funcionado bem até agora? Limitei-me a expôr o meu desconhecimento de causa. Mas não tenha dúvida, de que o farei se dentro de meses ou anos, algo correr menos bem, convosco. Posso parecer indolente, desinteressado, mas sei bem cuidar, do que é meu.
Amélia baixou o olhar incomodada. Porque é que aquelas palavras a incomodavam? Não duvidava do seu profissionalismo nem da sua competência, não tinha que recear.
- Então, - disse Carlos abrindo a pasta- vamos lá à leitura oficial do testamento, e à assinatura dos documentos necessários, para que possa  tomar posse do que é seu.
Mais de uma hora depois, no regresso ao escritório, os dois advogados conversavam.
- Confesso que me enganei, quando pensei que o sobrinho do velho António, ia ser presa fácil, para a concorrência, - disse Carlos. O homem, tem fibra.
- Parece que sim.
-Sabes que por momentos pensei que ele ia dizer que não estava interessado em manter o contrato, e que preferia ter os seus advogados, perto dele, e trabalhando em exclusivo no seu escritório?
- Pensei o mesmo. Talvez reflexo de ter um chefe que não gosta de promover mulheres, penso sempre se o cliente não é capaz de confiar em mim, pelo facto de ser mulher. E quando anunciaste que seria eu a tratar dos problemas jurídicos da sua empresa, fiquei à espera que me descartasse.
- Que disparate, Amélia. És mais competente, e estás melhor preparada que os outros colegas masculinos que temos na firma. E este cliente correu mundo, logo não tem decerto preconceitos desses. Aliás, acho que ele gostou bastante da ideia de trabalhares para ele. Algumas vezes,  creio ter surpreendido, um certo brilhozinho nos olhos dele, quando te olhava.

20.1.18

A VIDA É ... UM COMBOIO - PARTE X





Eram duas e cinquenta de uma bela e primaveril tarde, de meados de Abril, quando Carlos e Amélia entraram no moderno edifício de escritórios, sede da empresa de camionagem, que representavam. Pelo caminho, Carlos falara da empresa para onde se dirigiam, informando-a que era a maior do país, e uma das grandes empresas do ramo, na Europa. Era segundo ele, o mais importante cliente da firma de advogados, que os empregava. Um cliente a tratar com muito cuidado, pois seria um rombo na economia da sociedade de advogados perdê-lo. O dono, um septuagenário, nunca se casara, e ao morrer fizera seu herdeiro universal, um sobrinho que ninguém conhecia, pois vivia no estrangeiro. Eles tiveram que recorrer a um dos melhores detetives para o encontrar. O investigador, localizou-o, num bar em Viena.
- Bêbado?
- Não, empregado. Pelo relatório do detetive, parece ser um espírito livre e aventureiro, que correu meio mundo, e que se não for bem assessorado, vai levar a firma à falência em três tempos, pois não deve estar minimamente preparado, para os abutres que vão tentar enganá-lo.
- Mas nós vamos fazê-lo. Afinal é para isso que nos paga, não é verdade?
- Tu vais fazê-lo, porque és muito competente e porque tens uma grande noção de lealdade. Eu estou fora da firma dentro de dois meses. Por isso quis que viesses hoje comigo. O cliente tem que saber com quem pode contar, desde o primeiro momento.
Tinham chegado. Fizeram-se anunciar à secretária, uma mulher a beirar os cinquenta anos, alta e magra, de óculos, cabelos escuros presos num coque e fato castanho, que os acompanhou ao gabinete onde o cliente os esperava, e depois de ter batido com os nós dos dedos, abriu a porta e lhes deu passagem.
- Boas tardes. Sejam bem-vindos, - disse o homem que estava sentado atrás da enorme secretária, pondo-se de pé, e encaminhando-se para eles.
- Boa tarde, - respondeu Carlos
Amélia ficou sem voz. Ali na sua frente, num impecável fato azul, estava Paulo, o “motard” que tanto a impressionara, dias atrás quando a ajudara a substituir o pneu.
- Mas que surpresa? Quando recebi a vossa carta,  a marcar esta reunião, não podia adivinhar que uma das minhas advogadas, fosse a Amélia, - disse estendendo-lhe a mão.
- Mas, já se conhecem? – Perguntou Carlos surpreendido.
- O senhor Paulo Guerra, ajudou-me há dias na estrada, trocando-me o pneu que estava furado, pelo sobressalente. Não fazia ideia de que pudesse ser o nosso cliente.
- É, a vida é cheia de surpresas,- disse estendendo a mão a Carlos. Mas por favor sentem-se. Então era na vossa firma, que o bom do meu tio confiava, para resolução dos seus problemas jurídicos?
- O seu tio trabalhou com a firma que representamos durante mais de vinte anos. Os últimos dez, assessorado por mim, e não tenho razões para crer que alguma vez tivesse razões de queixa. Como vou encerrar a minha vida profissional, dentro de dois meses, será a Amélia, a minha substituta, logo será a ela que caberá essa tarefa. Posso assegurar-lhe que é muito competente, e que confio nela como em mim mesmo. Tem algum problema com essa substituição?

     

19.1.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE IX







Carlos saudou a esposa com um beijo breve.
- Boa tarde, querida. Olha quem trouxe para almoçar connosco.
- Espero que não te importes, - disse Amélia.
- De modo algum, fico feliz de que o Carlos tenha conseguido arrancar-te à tua vida de reclusão. Vamos sentar-nos?
Escolheram uma mesa um pouco afastada e sentaram-se.
- E como vai o teu pequeno Príncipe? Não o vejo desde que há dois anos esteve na festa da minha sobrinha-neta. Deve estar bem crescido, as crianças agora parecem crescer mais depressa do que no nosso tempo.
- Está realmente crescidinho. É um bom menino, muito inteligente, é o melhor aluno da turma e quase não abre os livros.
- Sabes, com a minha reforma, a Amélia vai finalmente ser promovida. Vai ficar com a minha quota, e o meu lugar.
- Aleluia! Só por isso já valeu a pena pedires a reforma antecipada.
-Penso que foi mesmo por isso, - disse Amélia. A ideia do chefe devia ser preparar o Pedro para ocupar o lugar do teu marido. Com esta antecipação ficou como o povo diz, no mato sem cachorro. Não pensas o mesmo, Carlos?
- É claro que sim. Ele sempre pensou que ao deixar-te para trás nas promoções, tu pedirias a demissão. Mas tu aguentaste firme, és uma excelente profissional, bem melhor do que alguns que te ultrapassaram, e ele não pôde despedir-te. Palavra que nunca entendi como um homem tão sensato e liberal como era o seu pai, pode ter tido um filho com ideias tão retrógradas e discriminatórias.
Calaram-se com a aproximação do empregado. Fizeram os pedidos e só depois que ele se afastou, Teresa perguntou:
- Nunca mais vais tirar essa aliança, Amélia? Desculpa a pergunta, mas conheço-te há mais de dez anos. Deves lembrar-te que eu era a secretária do senhor Sousa e que estava a teu lado quando soubeste da morte do teu marido. Despedi-me e mudei de emprego quando o Carlos foi promovido, mas ainda acompanhei a tua gravidez. Ambos temos um grande carinho por ti, e não gostamos de ver que te fechaste para a vida e para o amor.
- Sei. Também gosto muito de vocês e espero que a reforma do teu marido, não signifique um afastamento total. Tenho a certeza de que vou precisar dos conselhos do Carlos. Quanto à aliança ela defende-me de alguns atrevidos. O amor não se fez para mim, Teresa. Casei tão apaixonada que teria dado a minha vida pelo meu marido. E o que é que ele me deu em troca? Traição. Nunca mais quero passar por esse sofrimento.
- Credo, mulher, pareces uma velha a falar. Sabes o que a minha avó costumava dizer? A nódoa de uma amora verde, com outra amora, se tira, que é como quem diz, o sofrimento de um mau amor, com outro amor se esquece.
O empregado aproximou-se com os pratos, e o resto da refeição decorreu de forma amena, como se os três desejassem pôr ponto final nos assuntos pessoais.


18.1.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE VIII






- Entra. Já ia ter contigo. Estava aqui a passar ao Pedro os casos mais urgentes.
Carlos, o homem que entrara no gabinete, vestia um impecável fato cinzento, que não escondia um ventre um pouco proeminente. Completamente calvo, tinha uns olhos vivos, e um ar bonacheirão,  que podia enganar qualquer opositor, até que se cruzasse profissionalmente com ele.
- Finalmente o chefe fez-te justiça.
Amélia sorriu.
-Ambos sabemos, que não foi um caso de justiça, mas um caso de não opção de escolha, - disse
-Tens razão se houvesse justiça nas decisões dele, há muito tinhas sido promovida. Bom, estás despachada até à hora do almoço? Preciso de ti esta tarde, já que às três vou reunir com um dos clientes mais importantes que assessoramos, e uma vez que me vais substituir seria bom que fossemos os dois. Se não vais almoçar a casa, podíamos almoçar juntos, isto é se não te importas de almoçar com a Teresa, já que como sabes, almoçamos sempre juntos.
- Por mim tudo bem. Claro que nos próximos dias vou ter que me dividir entre o teu gabinete e este, pois o Pedro vai precisar da minha experiência, em alguns casos mas estou convencida que vai dar tudo certo.
- Então passo por aqui há uma. Até logo. Parabéns Pedro. Espero que agarres o lugar.
- Obrigado- Vou esforçar-me por merecê-lo, - disse o jovem.
Carlos saiu e Pedro perguntou:
- Trabalhas aqui há muito?
- Entrei como estagiária há doze anos. Ainda cá estava o pai do chefe e foi ele que me admitiu. Tenho a certeza de que se não fosse assim, não teria entrado. O pai era uma excelente pessoa. O filho pensa que as mulheres, não têm a mesma capacidade laboral dos homens. Que o nosso lugar é a casa, onde passaríamos o tempo a cuidar dos filhos e a embonecarmo-nos para agradar aos homens.  Desde que o pai se retirou, mais nenhuma mulher foi admitida. Na promoção, já por duas vezes fui preterida por colegas com menos experiência. Tenho a certeza de que a reforma do Carlos o apanhou desprevenido. Todos pensávamos que ele ia continuar. Voltando ao trabalho, estuda este processo, em primeiro lugar, o julgamento é já dia  quinze. Depois fala comigo diz-me como pensas estruturar a defesa e eu ajudar-te-ei. Também estarei a teu lado no tribunal nas primeiras audiências. 

17.1.18

A VIDA É... UM COMBOIO - PARTE VII




- Sente-se, Amélia. Chamei-a aqui porque tenho um novo trabalho para si. Um dos nossos clientes, faleceu há pouco tempo. Tinha um único herdeiro, um sobrinho que vivia no estrangeiro. Vamos ter uma reunião com ele esta tarde. O Carlos é que tratou sempre dos interesses jurídicos daquela firma, mas como sabe ele está a dois meses de se reformar, pelo que quero que passe com ele estes dois meses, para se inteirar de tudo, a fim de passar a substituí-lo quando ele se for embora.  A Amélia está connosco há uns bons anos, está perfeitamente capacitada para ficar no lugar do Carlos e deixar os casos de divórcios e partilhas para o Pedro que está a acabar o estágio e pode substituí-la. Está de acordo?
- Se o senhor, acha que eu estou capacitada para isso, fico muito feliz.
- Já falei com o Carlos. Ele espera por si, depois do almoço para a reunião com o cliente. Entretanto chame o Pedro, e diga-lhe o que acabei de lhe dizer. Passe-lhe os seus casos, e assegure-lhe que lhe dará apoio em qualquer dificuldade que ele tenha. Eu falarei com ele mais tarde, agora preciso sair.
Amélia levantou-se.  
- Farei por honrar o nome da firma, senhor – disse antes de se voltar para sair.
- Tenho a certeza disso, - retorquiu ele.
Ela saiu fechando a porta atrás de si. Matilde a secretária do chefe, fez-lhe o sinal de vitória com os dedos e Amélia sorriu.
Ambas sabiam, que Amélia devia ter progredido na carreira há muito, mas que o chefe, com ideias retrógradas e machistas, só o fazia agora porque não havia mais nenhum homem para promover.
Amélia já tinha sido preterida por duas vezes, por colegas menos capacitados. Há oito anos com a desculpa de que tendo um filho tão pequenino não poderia dedicar-se por inteiro ao cargo, e há três anos com a desculpa de que ela precisaria acompanhar o filho no seu primeiro ano de escola, e portanto não  teria a disponibilidade de tempo que o lugar exigia.  Ao chegar ao seu gabinete chamou o estagiário.
- Pedro, preciso falar contigo. Podes chegar aqui?
Não demorou mais do que alguns segundos. Era um jovem alto, muito magro, de rosto moreno, cabelos e olhos castanhos. Tinha um sorriso fácil, embora nos últimos dias andasse muito sério, quiçá triste até. Talvez porque o estágio estava a terminar e a perspetiva de ficar sem trabalho não lhe agradasse.
-Estás a acabar o estágio não é verdade, Pedro?
- Acaba para a semana.
-E gostavas de ficar cá a trabalhar?
- Claro que sim. Sabes se há alguma hipótese? – Perguntou ansioso.
- O chefe acaba de me dizer para te passar os meus casos, pois vais ser integrado. Vais substituir-me.
- Vais-te embora?
- Não. Vou substituir o Carlos que vai para a reforma em breve. Senta-te. Vamos trabalhar.
- É para já, - disse o rapaz com um sorriso que lhe iluminou o rosto.

16.1.18

A VIDA É ... UM COMBOIO - PARTE VI


Todos os dias, quando saía do escritório, Ricardo parava num bar para uma bebida, antes de se dirigir a casa, onde a mulher já o esperaria para jantar. Naquele dia não foi diferente.
- Olá. Apraz-me verificar que não mudaste de hábitos.
Ricardo levantou os olhos e mirou o recém-chegado. Tratava-se de um homem alto, moreno de cabelos e olhos escuros, quase tão negros, quanto a roupa inteiramente preta  que vestia. Pousou o capacete em cima do balcão e sentou-se a seu lado.
- Ora viva! Então estás de volta. Cansaste-te de correr mundo?
- Lembras-te do meu tio, António?
- Aquele que tinha uma empresa de camionagem?
- Sim. Morreu e nomeou-me seu herdeiro.
- Ena. Então agora és um homem rico.
-Sabes que o dinheiro nunca me importou. A minha mota e a minha liberdade sim.
- Mas vais assumir a empresa, ou não?
- Vou. Tenho trinta e oito anos, percorri metade do mundo, e talvez quem sabe, tome gosto pelos negócios. Estou contente por te encontrar. Sabes, uma semana depois daquela história, arrependi-me e fui à clinica para anular a doação, mas já não fui a tempo. a inseminação já tinha ocorrido. Desde então, não ando bem comigo mesmo. Desagrada-me saber que há um filho meu, por aí em qualquer parte, sem saber da minha existência, e quiçá precisando de mim.
- Quanto a isso não tens que te preocupar. Não resultou.
-Tens a certeza?
Absoluta. A minha amiga, ficou muito triste, mas mais tarde, apaixonou-se casou e foi viver para a Suíça com o marido.
-Nem sabes o peso que me tiras de cima. Sendo assim, tudo bem. Tenho que ir. Acabei de chegar, vou agora tomar conta da casa. Dentro de dias tenho uma reunião com os advogados da empresa, e ainda queria conhecer a mesma e os funcionários antes dessa reunião.
Pôs-se de pé. Levou a mão ao bolso e pôs sobre o balcão o dinheiro da bebida. Depois poisou a sua mão sobre o ombro de Ricardo, num gesto de despedida.
- Até outro dia, a gente vê-se por aí.
- Adeus, Paulo. Boa sorte.
Pegou no capacete, deu a volta e afastou-se a passo largo deixando Ricardo apreensivo. Nunca pensou que Paulo, levasse dez anos a pensar naquela doação. Tinha acabado por fazer a vontade da irmã, convencendo o amigo, que sendo um homem inteligente e honesto, estava dentro daquilo que a irmã desejava. Além disso, era amigo da aventura e da liberdade, estava apostado em correr o mundo na sua mota, o que decerto o levaria a nunca mais pensar no caso. Nunca lhe passou pela cabeça, que ele se tivesse arrependido, ou que tivesse levado aqueles dez anos a pensar num possível filho. Reconhecia agora que não conhecia tão bem o amigo quanto pensava. Bebeu de um trago o resto da bebida e pediu outra, pensando que não tinha de se preocupar. Paulo não sabia que ele tinha uma irmã, e além disso, com a história que ele inventou, Paulo esqueceria o assunto com certeza. Acabou a bebida, pagou e saiu. Eram horas de jantar e a esposa não gostava que chegasse atrasado


15.1.18

A VIDA É ... UM COMBOIO - PARTEV


Martim observava a potente moto negra, completamente fascinado.
Enquanto isso, Paulo observava-o. Não pode deixar de reparar no brilho de admiração nos olhos negros do menino. Também na cor negra dos seus cabelos e na pele morena. Pensando que não se parecia em nada com a mãe voltou-se para Amélia.
- Vê-se que o seu filho, gosta de motas.
- Muito. Desde bem pequenino, sempre as preferiu, em detrimento de outros brinquedos.
De súbito, Paulo baixou-se, pegou em Martim e sentou-o na mota.
- E então, campeão, qual é a sensação? -Perguntou ao menino.
- Uma maravilha. Um dia, ainda vou ter uma assim, mãe.
- Falamos nisso quando chegar esse dia, Martim, - respondeu a mãe com um sorriso.
- Devias experimentar, sentar-te aqui, - disse o garoto
- Deus me livre e guarde. Essas coisas metem-me medo. Agradece ao senhor, estamos a atrasá-lo. Vamos embora.
Paulo agarrou o menino e voltou a poisá-lo junto da mãe. Fez-lhe uma festa na cabeça e disse:
- Gostei de vos conhecer. Não se esqueça que tem que levar o carro à oficina. O pneu sobressalente só serve como um remedeio para seguir viagem.
-Não esquecerei, como não esquecerei a sua ajuda. Muito obrigado, - disse Amélia estendendo-lhe a mão que ele se apressou a apertar.
Com o toque, a mulher sentiu que o seu coração se alterava, e sem poder suportar o olhar penetrante dele, desviou o olhar, sentindo o rosto afogueado pelo rubor.
Paulo pensou que aquela mulher era muito interessante, e que gostaria de a conhecer melhor. Abanou a cabeça, como se assim afastasse aqueles pensamentos. Afinal a mulher usava aliança, portanto era casada e tinha um filho, não era pessoa em quem ele pensasse para uma aventura. Ainda que as pessoas pensassem, que era um aventureiro, que nada levava a sério, ele sempre respeitara as mulheres casadas. Soltou-lhe a mão, dizendo:
- Podem seguir viagem. Eu vou atrás de vocês até à cidade, para o caso de precisarem de ajuda novamente.
- Mais uma vez muito obrigado. Vamos Martim, daqui a pouco é noite.- Disse Amélia, pegando a mão do garoto e encaminhando-se para o carro.
Ligou o motor e o veículo arrancou e passou por Paulo que já se encontrava sentado na sua potente Kawasaki.
Uma hora mais tarde, entrava na cidade. Paulo que seguira sempre atrás do carro, acelerou então, fez um aceno de despedida ao passar pelo carro e seguiu por uma rua à direita. Amélia continuou em frente em direção ao centro, e à sua casa.