26.9.17

SEM TITULO - PARTE II







Salvador Rodrigues era um homem alto, de porte atlético. Cabelos castanhos e olhos castanho âmbar,  de expressão séria e profunda. Testa alta, nariz retilíneo, queixo firme e boca bem desenhada. Era sem dúvida um belo exemplar masculino. Porém ele parecia não dar-se conta dos suspiros femininos, nem dos olhares lânguidos com que as mulheres o brindavam, onde quer que ele fosse.
Dir-se-ia que vivia apenas para a sua carreira, e que era imune às setas do Cupido. Porém nem sempre foi assim.
Cinco anos atrás, tinha conhecido uma jovem extraordinária, por quem se apaixonara. Durante três meses, saíram praticamente todos os dias, passearam pela cidade, foram jantar juntos, dançar.
Chegou até a levá-la a sua casa, para lhe apresentar o pai e o irmão.
Com ela, o sempre sisudo Salvador, aprendera a rir, e os seus olhos que no tribunal, quando enfrentavam os seus opositores, pareciam os de um tigre, prestes a atacar, ganharam uma expressão de ternura que só ela conhecia.
Salvador estava cada dia mais encantado e supôs que a jovem partilhava o mesmo sentimento, mas para ela, ele não passava de um amigo, um quase irmão, por quem sentia um verdadeiro carinho, que nada tinha de amor, nem de desejo de partilhar outra coisa que não fosse uma sã amizade.
Salvador não se deu conta disso. Precisamente quando se convenceu que Ana Clara era a mulher da sua vida, dirigiu-se a sua casa para lhe confessar os seus sentimentos. Ficou lívido quando o seu irmão lhe abriu a porta em tronco nu. Disfarçou o melhor que pôde e soube, fazê-lo com tal perfeição que acabou no altar como padrinho do homem que lhe roubou a mulher amada. Desde então nenhuma outra mulher, trouxe alegria ao seu olhar. Não que levasse vida de santo. Saía com mulheres, é verdade, aproveitava o que elas estavam dispostas a dar-lhe, mas jamais encontrou alguma com quem lhe apetecesse sair uma segunda vez, muito menos que o levasse a desejar  mudar o seu estado civil.
A sua carreira como advogado, acumulava sucessos, amealhara um bom pecúlio, e não fora um certo cansaço que por vezes o acometia, dir-se-ia que na sua solidão, Salvador era um homem feliz.
Acabou de comer e premiu o botão da campainha que o ligava à secretária.
-Raquel, trazes-me agora um café por favor?
-Levo já, chefe.
Voltou a aproximar-se da janela. Lá fora anoitecia. O trânsito era intenso, as luzes começavam a aparecer. Na rua, nas janelas. Uma gaivota passou grasnando, num voo rápido junto à janela. O dia chegava ao fim.
Raquel entrou com o café.
-Aqui tens. Vais ficar a fazer serão, com esse processo?
-Vou. Antes de sair telefona ao Ferrer. Diz-lhe para estar aqui amanhã às onze horas. Temos que preparar o julgamento. Santiago é um osso duro de roer, não quero que nada dê errado, neste julgamento.
-Fica descansado. Vou fazê-lo antes de sair. E se não precisas mais nada, até amanhã.
-Até amanhã Raquel.




CONTINUO A AGUARDAR AS VOSSAS SUGESTÕES PARA O TITULO. COMPREENDO QUE COM TÃO POUCO DA HISTÓRIA SEJA DIFÍCIL.. SE EU QUE A ESCREVI ESTOU A VER NAVIOS.


TÍTULOS SUGERIDOS ATÉ AGORA.

O filho Pródigo
A lei e a vida
O tribuno
A força da Lei
Disputa de irmãos
Amor e direito
Duelo entre amigos
A balança da lei
Defesa transcendente
Prova  da inocência
A verdade vencerá
Sucesso, meu irmão
Aliança





25.9.17

SEM TITULO - PARTE I




Afastou a cadeira e levantou-se. Estava cansado. Há horas que lia e relia aquele processo e não conseguia concentrar-se. Foi até à janela. Pensativo passou a mão pela testa. Tinha que se concentrar. O julgamento era dentro de três dias e o seu opositor era um advogado de renome. Santiago Castro, um dos nomes mais fortes da história atual, na advocacia, um homem frio que nunca perdia um caso.
Salvador Rodrigues, estava no mesmo barco. Também nunca tinha perdido um caso, mas os dois nunca se tinham enfrentado, até aquela data. Ia ser o julgamento do ano, já que um deles seria derrotado pela primeira vez, e os dois temiam-se por igual.
Salvador no entanto sabia que não era o julgamento que o deixara naquele estado. O problema era pessoal, e isso é que o estava a impedir de se concentrar na defesa do seu cliente, em cuja inocência ele acreditava piamente.
Não se perdoaria se por erro seu, o cliente, fosse condenado. Ouviram-se umas pancadas na porta e de seguida uma mulher entrou na sala.
- Vou ao café. Queres que te traga algo para comeres? Há horas que estás aqui fechado, nem sequer foste almoçar.
Raquel a sua secretária, era uma mulher de baixa estatura, corpo roliço e rosto simpático. Rondava os cinquenta anos, e conhecia Salvador desde menino. Estava no escritório, há quase trinta anos. Fora secretária do seu pai, e continuara no escritório, quando ele se reformara e passara para o filho mais novo o escritório e a sua carteira de clientes. Raúl o mais velho dos dois irmãos não quis saber da advocacia. Aliás ele não quis saber da Universidade. Largou os estudos mal terminou o Secundário. Sempre se interessou pelo desporto e se bem que nunca pensou ser profissional, nem competiu em nenhuma modalidade, na hora em que recebeu a parte da herança da mãe, abriu um estabelecimento de artigos desportivos, em Cascais e as coisas estavam a correr tão bem que em breve pensava abrir uma filial, numa cidade no Algarve, estando ainda a pesquisar o melhor local para ela.
-Obrigada, Raquel. Não me apetece comer. Se puderes trazer-me um café, antes de ires…
-Não. Só se comeres alguma coisa antes. Já te trouxe seis cafés, desde que chegaste. Queres sofrer uma “overdose” de cafeína? Não acredito que esteja assim tão difícil essa defesa.
- Não. Eu é que estou com os níveis de concentração muito em baixo. Vai lá então e traz-me uma sandes de presunto e uma água mineral.
 - Ok. Não me demoro. Vou passar a ligação telefónica para o teu gabinete enquanto me ausento.
Saiu deixando-o só. Cinco minutos depois, estava de volta. O que não admirava já que o café se situava no piso inferior do mesmo edifício do escritório.


NOTA. ACABOU-SE A INSPIRAÇÃO PARA O TITULO DESTE CONTO. ASSIM IRÁ SER PUBLICADO COM SEM TITULO. PEÇO A VOSSA COLABORAÇÃO. QUEM ME VAI AJUDAR A ENCONTRAR-LHE UM TITULO?
AGUARDO AS VOSSAS SUGESTÕES

24.9.17

PORQUE HOJE É DOMINGO




O meu olhar é… mágico


O meu olhar é mágico. 
Ele é o portal de entrada na vida que me rodeia.
É a borboleta que dança inebriada
Sobre um canteiro florido.
Ele é a alegria esfuziante da criança,
Que brinca
Sob o atento olhar da mãe, que sonha
Para ela um futuro radioso.
Ele é o Amor latente nos jovens
Que trocam beijos num banco de jardim.
O meu olhar é mágico
Ele é a lágrima escondida na solidão dos idosos
A quem o desemprego levou
Os filhos na mala da emigração.
É a dor sem tamanho daquela mãe
A quem um acidente brutal roubou
A luz dos seus olhos.
Ele é o mar que no horizonte
Se funde no espaço celeste.
Ele é a nuvem que passa
O vento que verga as árvores
E o sol que a todos afaga.
O meu olhar é mágico
Porque ele é o portal das emoções
Que compõem a Sinfonia da Vida.

Maria Elvira Carvalho.


in  Antologia de Poesia Contemporânea, Entre o sono e o sonho vol V tomo II Pag. 253
Chiado Editora






23.9.17

A LENDA DE SANTO ANTÓNIO DA CHARNECA

Tal como informei no post anterior, dou seguimento ao desafio
foto da Igreja de Santo António da Chaneca


jardim com a imagem do Santo como terá sido visto pelo escravo


Lenda do Santo António da Charneca 
Havia no Alentejo um rico proprietário que tinha feito a sua fortuna nas Índias, de onde trouxe uma filha e um escravo. D. Aires de Saldanha tinha um feitio difícil e ideias fixas: obrigava o seu escravo Macumba a ir todos os dias recolher lenha por serras distantes e guardava bem fechada no seu solar a sua bela filha Ana. A partir de um certo momento, o escravo Macumba passou a cruzar-se com um frade franciscano que provocava uma estranha perturbação nos bois que puxavam o carro de lenha: os bois tremiam e curvavam-se diante do frade em obediência ritual. A princípio o escravo irritou-se mas quando descobriu que se tratava de Santo António tremeu de emoção e julgou-se indigno da sua presença. Macumba deveria transmitir ao patrão o desejo de Santo António de ver construída uma capelinha e de dizer à jovem Ana que esta sofria porque não tinha fé suficiente. Quando Macumba contou a Ana o sucedido esta não acreditou nele e impediu-o de falar com o seu pai. Então, Santo António falou com Ana e transmitiu-lhe o seu desejo e também que ela realizaria em breve o seu sonho de se casar. No dia seguinte, e segundo as instruções de Santo António, os bois foram largados e no lugar onde pararam e começaram a escavar a terra surgiram cal e areia. A população construiu nesse mesmo lugar a capelinha mais bonita de toda a região. Ana casou-se com um mensageiro que na semana seguinte chegou ao solar e Macumba, agora homem livre, dedicou-se para sempre ao culto do seu santo protector.


Fonte

 Fonte: http://lendasdeportugal.no.sapo.pt/distritos/setubal.htm 


E uma vez que Lagos  é a cidade do mais-que-tudo e também minha por adoção, aqui vai uma lenda da zona






A Fonte Coberta
Em um sítio chamado a Fonte Coberta, nas proximidades de Lagos, existe encantado um mouro ou uma moura. Em certa ocasião foi uma pobre mulher buscar água à fonte, e ao afastar-se viu duas esteiras com belos figos secos a enxugar ao sol.
No Algarve há por assim dizer duas diversas exposições de figos:
uma por ocasião de seca geral, e é quando o figo, apanhado já muito maduro, pincre, lhe chamam os algarvios, é conservado ao sol até secar de todo, e capaz de entrar nas tulhas de cana ou gamão, onde é acalcado e conservado; a outra, para consumo da família, sendo previamente lavado e posto ao sol a enxugar.
Não pôde a pobre mulher resistir ao desejo de lançar mão a alguns figos e apanhou cinco. A certa distância reparou que era seguida de uma criancinha a chorar, chamando pela mãe.
Perguntou a mulher à criança por que razão chorava, a criança porém em vez de dar qualquer resposta chorava cada vez mais.
Comoveu-se ela, e na suposição de que a criança tinha fome, meteu a mão nos bolsos e tirou dois figos para lhe dar. Qual não foi o seu espanto quando em lugar do figos se encontrou com cinco peças de ouro!… Nesse mesmo momento a criança desapareceu, aparecendo em seu lugar um homem trigueiro, vestido ao modo dos maltezes, de barrete vermelho e com um varapau na mão.
Atemorizou-se a mulher do súbito aparecimento do homem; este, porém, respondeu-lhe:
— Bruta, que não soubeste aproveitar-te dos figos, podendo apanhar os que quisesses!
E ao mesmo tempo que disse estas palavras também desapareceu.
Em outra ocasião passou junto da mesma fonte uma tendeira, chamada Mariana, e viu próximo uma criancinha de barrete encarnado. A tendeira ficou naturalmente surpreendida e atemorizada, porque já a esse tempo ouvira dizer que ali apareciam mouros encantados.
A criancinha, porém, sem fazer reparo na surpresa da tendeira, aproximou-se-lhe e disse:
— Dou-te uma boa porção de feijões, se me prometeres não os distribuires por outras pessoas.
E ao mesmo tempo mostrou-lhe uma boa porção de feijão branco.
A mulher prometeu à criança cumprir a condição e encheu uma alcofa do referido legume.
Mais adiante encontrou ela um homem e pediu-lhe com muitas instâncias que lhe desse os feijões, que levava consigo. Respondeu-lhe a mulher que lhos não podia dar, pois os recebera com a condição de os não distribuir por ninguém. Impôs-se-lhe o homem dizendo que a criança era seu filho, e que este lhe oferecera os feijões sem a sua autorização. A mulher abriu a alcofa e ficou admirada de encontrar os feijões substituídos por belos pintos antigos de prata.
O homem disse-lhe:
— Não te aconselharam a que não desses a ninguém os feijões?…
Quando a mulher ia a dar a resposta, já não viu o homem: tinha desaparecido como o fumo.
Estes dois casos e muitos outros andam na memória de toda a gente que reside próximo da fonte. Os velhos contam-nos por os ter ouvido contar aos seus avós, e estes aos seus avoengos. Como em muitas outras lendas de mouras encantadas, desconhece-se a razão por que ali se encontram encantados os tristes mouros.
Estes contos são sempre ouvidos com o profundo respeito de quem assiste à narração de um milagre autêntico.
OLIVEIRA, Francisco Xavier d’Ataíde As Mouras Encantadas e os Encantamentos do Algarve Loulé, Notícias de Loulé, 1996 [1898] , p.245-246

Nota: Se algum dos que me acompanham, conhecerem alguma lenda e a quiserem contar nos seus espaços por favor digam nos comentários neste link, para que todos possamos acompanhar

22.9.17

AVISO À NAVEGAÇÃO



Terminada que foi mais uma história, (a última das três escrita antes das férias) e resolvido o problema do pc avariado, publicarei a partir de segunda  dia 25 uma nova história. Ando às voltas com o titulo, se até lá não me ocorrer nada, publico-a assim mesmo e peço a vossa ajuda para o titulo. Até lá, informo que amanhã, sábado, publicarei uma lenda, dando continuidade a um desafio que corre na net, iniciado pela CATARINA e pela PAPOILA, e que já conta com a participação de vários blogues. No "LEGENDEIRO DA AFRODITE" poderão ver quem já participou e se estiverem interessados em participar, deixem a indicação nos comentários para que possamos todos acompanhar.
Uma vez mais agradeço o carinho e paciência com que acompanham as minhas histórias. 
Um bem haja para todos vós.

21.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XX




- Mas isso é uma ótima noticia. – Soltou-a. - Vem, vamos para a sala, quero que me contes tudo. Senta-te aqui ao meu lado,- disse afundando-se no sofá.
- O café!
- Quem quer saber de café agora? – Estendeu-lhe a mão num convite mudo.
Ela sentou-se a seu lado e ele passou-lhe o braço pelos ombros puxando-a para si.
- Conta-me tudo. Não, deixa-me adivinhar, o Pedro descobriu que foi mesmo o Fernando?
Ela relatou-lhe a conversa tida com o inspetor nessa tarde.
- Tenho pena do António. Não merecia este desgosto. Aquele sobrinho é a única família que lhe resta. Amanhã mesmo vou pedir ao nosso advogado que tome conta do caso, e tenho a certeza de que não demorará muito, terás o teu pai em casa. E mais tarde, quando se recuperar, faço questão de o readmitir.
Levantou-lhe o queixo, procurando o seu olhar.
- E então não haverá nada mais que impeça a nossa união. Quero que saibas, que até que te conheci, nunca acreditei no amor tal como o descrevem os apaixonados. O amor para mim era uma utopia, uma miragem, o que me interessava mesmo era o sexo. Todos os meus amigos, sabiam que eu era assim, e nenhum deles acreditaria ainda que lhes jurasse, que há meses venho a tua casa apenas para estar contigo, sem nunca ir contigo para a cama. E no entanto aconteceu, não porque não te deseje, e Santo Deus, como te desejo, mas porque és diferente de todas as outras. E és diferente, porque te amo, porque desejo fazer parte da tua vida, até ao meu último suspiro. Entendes?
- Como não ia entender, se comungo do mesmo sonho?
Segurou o rosto dele entre as suas mãos, e pediu quase sem voz:
-Por favor Gabriel. Vai-te agora! Não consigo ser tua enquanto não vir meu pai reabilitado. Mesmo amando-te com todo o meu ser.



EPILOGO





Um mês depois, o juiz assinava a revogação da pena e ordenava a libertação de Joaquim Machado, bem como a prisão preventiva de Fernando Lourenço.
As marcas do tempo e da vergonha eram bem visíveis no rosto e no corpo do pai da jovem, que parecia ter envelhecido mais de dez anos naqueles quatro anos de cativeiro.
À sua espera tinha a filha, que lhe explicou como tinha chegado ao verdadeiro culpado, bem como o papel importante de Gabriel e do seu amigo inspetor em todo o processo.
Não foi difícil para o homem que ouvia, reparar no brilho dos olhos da filha cada vez que falava do seu chefe. Temeu por ela. Afinal eles eram pobres, viviam do seu salário, o empresário era um homem muito rico e com fama de mulherengo.  Mas o temor só durou até à noite quando Gabriel se apresentou em sua casa, para pedir a mão de Sandra com anel de noivado, e a informação de que queria casar o mais rápido possível.
Quando os jornais sensacionalistas, tiveram conhecimento do noivado, muita coisa se escreveu, chegando a dizerem que Gabriel se casava com a filha do homem que estivera injustamente preso, para evitar um processo de indemnização.
Eles não se importaram. Sabiam dos sentimentos que os uniam, e do longo percurso percorrido até aquele momento.
A noiva fez questão de uma cerimonia simples e intima, apenas para os familiares e padrinhos.
Ela não queria continuar a ver-se nas páginas dos jornais, nem a ler as mentiras com que a imprensa os brindava
Com a bênção paterna, casaram duas semanas depois.
Dias mais tarde, em plena lua-de-mel, na pista de dança do hotel, ele confessava-lhe que se apaixonara por ela, ao vê-la dançar o tango, e que desde aí, sonhava com o momento em que os dois o dançassem juntos.
E então como se os músicos tivessem ouvido as suas palavras, ouviram-se os primeiros acordes da música “À média luz”



Fim

Elvira Carvalho


19.9.17

À MÉDIA LUZ - PARTE XIX


Chegou nessa noite, e foi direto para casa dela. Estava morto de saudades. Fizera todos os possíveis para se esquecer dela, durante aqueles dias, procurara divertir-se com outras mulheres, mas nenhuma conseguiu romper a armadura com que aquele novo sentimento o vestira. Estava irremediavelmente apaixonado, por aquela mulher maravilhosa de corpo e alma. Uma mulher que por lealdade ao amor filial era capaz de tudo, até de se arriscar a ser presa. E ele queria essa capacidade de amar e de se dar para ele. Mais do que querer. Necessitava-o com toda a sua alma. Resistira. Claro que resistira, nunca pensara em casamento, nunca sentira aquela necessidade de ter, e de se dar a uma determinada pessoa. Nos seus relacionamentos anteriores, nunca esteve nada em jogo, que não fosse o sexo, quanto mais prazeroso melhor. Com ela foi diferente desde o primeiro momento, e não porque não lhe despertasse a libido. Santo Deus, nunca tinha tomado tantos duches gelados. Mas sempre soube, que no dia em que se deitasse com ela, não se contentaria com menos do que o resto da sua vida. E era disso que ele tinha medo. Disso que fugia. Aqueles dias de ausência, acabaram com toda a sua resistência. Estava ansioso por chegar, por apertá-las nos braços e beijá-la até se cansar. Até se cansar? Tinha a certeza de que nunca se cansaria. Apanhou um táxi no aeroporto, e deu a morada dela. Ansioso por a ver, tocou a campainha, uma, duas, três vezes.
Franqueou-lhe a passagem, surpresa com a mala que carregava. Ele entrou, largou a mala, e pegando-lhe num braço puxou-a para si e sem deixar de a fitar, beijou-a. Um leve toque na boca, como que um roçar de ave, que a fez suspirar e entreabrir os lábios, e logo ele a invadiu num beijo urgente e desesperado, que os deixou sem fôlego. Ela apertou o seu corpo contra o dele, numa entrega que o enlouqueceu. Finalmente afastou-a um pouco, sem deixar de a fitar, nem de a abraçar.
- Amo-te. Sabes isso não sabes? – Perguntou a voz enrouquecida pela paixão.
Confirmou com um gesto mudo, uma lágrima rolando pela face.
-Também me amas, mas…? – Perguntou preocupado com a sombra de tristeza, nos olhos dela.
-Não pode haver futuro para nós, enquanto o nome de meu pai, não for reabilitado. Não quero que os meus filhos saibam que o avô esteve preso, acusado de ter roubado a empresa do pai.
- Sandra, eu acredito na inocência dele. Mas não sei se conseguiremos prová-lo ao fim destes anos todos. Por favor, não condenes tu também o nosso amor.
- Talvez não seja tão difícil assim. O inspetor procurou-me hoje. Acredita que descobriu quem fez o desfalque, e pediu para arranjar um advogado e pô-lo em contacto com ele.