21.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO- PARTE XXIV



- Deixa-me pelo menos levar-te a casa. Precisas de um chá ou talvez uma bebida mais forte. Toma, enxuga o rosto, - disse estendendo-lhe um lenço. De seguida pôs o carro a trabalhar e conduziu direto à casa dela. Estacionou junto à porta, e apressou-se a dar a volta ao carro para a ajudar a sair.
- Dá-me a chave. Eu abro a porta.
Procurou a chave na mala e deu-lha. Ele abriu a porta e deu-lhe passagem. Ela acendeu a luz enquanto ele fechava a porta.
- Diz-me onde é a cozinha e vai para a sala. Tenta acalmar-te e lembra-te que não tens que dizer mais nada, a não ser que o queiras fazer.
- Eu sei. Mas preciso de o fazer. A cozinha é por trás dessa porta.
Entrou na sala e sentou-se no sofá. Recostou a cabeça e cerrou os olhos. Pouco depois Nuno entrou na sala com um tabuleiro com duas chávenas de chá, que colocou em cima da mesa. Estendeu-lhe uma chávena e pegando na outra sentou-se no cadeirão em frente.
- O homem com quem meu pai me casou, já era viúvo. A primeira mulher de Álvaro suicidou-se. Dizia-se que sofria de uma depressão grave. O que não era de admirar se como acredito, passou pelo mesmo que eu.
Luísa falava devagar em voz baixa, quase como se estivesse esquecida do homem que estava na sua frente, e falasse consigo mesma.
- Foram quatrocentas e vinte e sete noites de terror, contadas uma a uma, como o condenado, que espera o dia da execução. Estava desesperada, só pensava em morrer. Sabes que me tentei matar? Não aguentava mais e atirei-me do carro em movimento. Penso que foi a minha atitude,  que fez com que Álvaro se descontrolasse, e perdesse o controlo do carro. Ele saiu da faixa em que seguia e foi embater num camião que vinha em direção contrária. Todos os dias agradeço a Deus a sua morte. Tive acompanhamento psicológico durante anos, mas continuei com medo dos homens. Isolei-me e dediquei-me unicamente aos meus alunos. Hoje foi a primeira vez que saí, e não sei porquê, não senti medo de ti, nem sequer quando me abraçaste no carro.
- Meu Deus, Luísa! Quanto sofrimento. Comparado com isso, aquilo  por que  passei não foi nada. Penso que não tens medo de mim, porque o amor que nos uniu, ainda está latente dentro de nós. Meu Deus, como eu gostava de te tomar nos meus braços, e apagar todo esse sofrimento. Mas não posso. Porque ainda há algo que precisas saber. Há dois anos, no Zimbabwe, chamaram-me para ir ver uma criança num musseque nos arredores de Harare, que estava muito mal. e verifiquei que ela tinha que ser operada de urgência pois corria o risco de uma peritonite. Tinha que a levar para o hospital. No Zimbabwe como em Angola existem milhares de minas terrestres espalhadas pelos campos. Nunca cheguei ao hospital com aquela criança. Fui vítima de uma mina. Perdi a perna esquerda até à parte de cima do joellho. Estive mal. Não apenas no físico, mas também psicologicamente. Não conseguia aceitar. A minha perna esquerda não existe. É uma prótese. Só os meus pais o sabem, mas nem eles nunca me viram sem roupa. É por isso que não te posso oferecer um futuro. Não sei viver com a compaixão, não suportaria ver pena nos teus olhos, quando me visses nu.





ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXIII




O resto da refeição decorreu quase em silêncio.
-Está uma noite demasiado bonita para irmos já para casa. Queres ir dar uma volta? Podíamos ir pela marginal, talvez até Belém, o que achas? – Perguntou Nuno quando saíam do restaurante.
- Já te disse que não costumo sair à noite. Confio em ti. Vamos onde quiseres desde que não chegue muito tarde a casa.
- Tens medo que a carruagem se transforme em abóbora?
- Não. Tenho medo de sonhar. Nem eu uso sapatos de cristal, nem tu és um príncipe apaixonado.
Fora direta. Ele engoliu em seco. Não podia responder de igual modo. Os seus sentimentos estavam confusos. A barreira que erguera à sua volta, explodira em milhares de bocados, como se fora de cristal. Ficara a lembrança do seu corpo macio, dos seus beijos ingénuos e simultaneamente apaixonados. Da confiança com que se lhe entregava. Sentiu que o seu corpo reagia aquelas lembranças. Passou a mão pela testa, como se assim eliminasse aquelas imagens.  Conduziu até Belém e estacionou no jardim em frente ao Mosteiro dos Jerónimos. Voltou-se para ela:
- Vamos conversar, Ser diretos e expurgar de uma vez o passado. Precisamos disso, como do ar que respiramos. Eu pelo menos preciso. Começas tu ou eu?
- Começas tu. 
- Muito bem. Já me disseste que o teu pai te forçou a acabares comigo e te marcou o casamento com outro homem. Lamento sinceramente que não tenhas tido a coragem de me dizer a verdade. Teria tentado demover o teu pai, dessa ideia, e ainda que o não conseguisse não teria levado anos a amaldiçoar-te, julgando-te uma leviana que tinha troçado dos meus sentimentos. Por não teres tido a coragem de seres sincera, perdi a confiança nas mulheres e renunciei à hipótese de formar uma família, ter filhos. Calculas o que foi a minha vida durante estes dezasseis anos? Não te será estranho que quando pensava em ti apenas sentisse raiva e desejos de me vingar provocando-te o máximo sofrimento. Cada vez que te imaginava casada, dando a outro o que já tinha sido meu, sentia vontade de te matar. Graças a Deus que estava longe. Se estivesse aqui, talvez agora estivesse numa prisão.  
As lágrimas corriam silenciosas pelas faces de Luísa, quando tomou a palavra.
Não penses que sofri menos do que tu. Também não vou dizer que sofri muito mais, o sofrimento não se mede a metro. Mas tu eras maior e livre. Pudeste partir e de certa maneira estavas a realizar o sonho da tua vida, decerto de algum consolo isso terá servido. Eu não tinha ninguém. Meu pai casou-me com um monstro. O meu casamento durou catorze meses, mas para mim foram mais que catorze anos. Uma infinidade de tempo, em que o sofrimento era tanto que quase enlouquecia.
De súbitos desabotoou os botões do casaco e abrindo-o, expôs aos olhos do homem a parte superior do corpo, apenas coberto pelo sutiã de renda e cheio de cicatrizes.
-Olha para o meu corpo Nuno. É assim que o recordas? – Perguntou com voz rouca. - Estas são as marcas da felicidade que o meu marido me deu.
Voltou a abotoar o casaco, e continuou
- Não penses que são apenas estas. Todo o meu corpo ficou marcado. Meu Deus, tenho vergonha e nojo de mim mesma, cada vez que penso no que passei.
Por momentos Nuno ficou sem fala. Poderia ter imaginado tudo, menos aquela barbaridade. Sem se poder conter, Nuno puxou-a para si, e abraçou-a com carinho.
- Acalma-te, não quero saber mais nada, não quero que recordes essas atrocidades. Perdoa-me.
- Não. Deixa-me continuar. Tu mesmo disseste que precisamos expurgar o passado.


20.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO. PARTE XXII






- E se deixássemos de lado o passado, e desfrutássemos desta magnífica refeição? – Perguntou Nuno
Não lhe agradava a tormenta que adivinhava nos olhos femininos, cujo azul se apresentava quase negro. Desde que falara com o pai que estava a por em causa, tudo o que pensara sobre ela durante anos.
Luísa não respondeu. Limitou-se a pegar no talher e iniciar a refeição.
Uns minutos depois ele quebrou o silêncio.
- Segundo sei, as tuas aulas acabam em breve. O que costumas fazer nas férias? Viajas?
- Não. Passeio pela cidade, visito museus e igrejas. E aproveito para ler. Não tem graça viajar sozinha. Não se tem com quem partilhar emoções.
- Às vezes encontram-se boas companhias em viagens.
-É possível. Mas os meus livros também me levam a viajar e são excelentes companhias.
- Claro que sim. Mas…chega-te? O que quero dizer é que és uma mulher jovem e bonita, estás na plenitude da vida. Não tens desejos de algo mais? Uma família, por exemplo?
- Não.
- Gostaria de te perguntar porquê. Mas penso que não tenho o direito de entrar na tua intimidade.
- E eu gostaria que tu soubesses porquê, sem precisares perguntar.
- O que nos remete de novo para o passado.
- E temos alguma coisa em comum que não seja o passado?
- Acredito que sim. Senão vejamos. Ambos adoramos crianças, ambos escolhemos profissões que nos põem ao serviço delas completando-se. Tu abres-lhes a mente com os teus ensinamentos, eu abro-lhes o corpo para lhes restituir a saúde. Ambos gostamos de ler, e… de caldeirada de marisco – completou sorrindo.
- E de vinho Rosé - disse Luísa, agora menos tensa.
- A propósito de crianças, aquele miúdo que ainda está no hospital, vai perder o ano? Pedi novos exames para segunda-feira, e se estiver tudo como espero, vou dar-lhe alta, mas será que consegue recuperar as aulas perdidas?
- Claro que sim. Tenho feito as lições com ele, todas as tardes no hospital, -respondeu Luísa.
- Devia calcular que não o ias deixar para trás. Se vais todos os dias, sabes que com a fisioterapia está a fazer grandes progressos. Mas depois de ter alta precisa de especial cuidado. Uma queda, ou pancada naquela perna, pode ser muito grave.
- Dentro da escola, não terá qualquer problema. Cuidarei dele o tempo todo. Mas as aulas estão quase a terminar, os pais estão emigrados e ele vive com os avós, que já não são novos e têm problemas de saúde especialmente o avô.
- Então provavelmente o melhor é aguentá-lo mais uma semana no hospital. Não sei se sabes, mas aquele osso teve várias fraturas, estava praticamente todo fragmentado foi necessário recorrer placas metálicas para o reconstruir.
-Sabia que tinha sido grave, mas não imaginei semelhante quadro.
Tinham acabado a refeição, e o empregado aproximou-se para recolher os pratos e entregar-lhes a ementa dos doces.



19.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XXI



Às oito horas, Nuno tocava à campainha da casa de Luísa. A porta abriu-se, e a jovem saiu. Envergava um conjunto de calça e casaco em seda azul e umas sandálias de salto alto. Os cabelos não muito compridos caíam sobre os ombros e no rosto uma leve maquilhagem. Estava muito bonita.
- Continuas a ser pontual, - disse ao chegar junto dele.
- Há coisas que fazem parte de nós,- respondeu apertando a mão feminina entre as suas. E acrescentou de seguida. – Estás linda.
- Obrigado. Tu também não estás mal, - disse entrando no carro.
Nuno pôs o carro em marcha. Fez-se um silêncio estranho, pesado.
Ele mantinha-se atento à estrada, ela perdida nos seus pensamentos. Tanta coisa que gostaria de lhe perguntar. Tanta coisa que gostaria de lhe dizer. Precisava arranjar coragem. Não podia encarar o futuro sem esclarecer o passado.
-É estranho, que morando na mesma cidade e relativamente perto não nos tenhamos encontrado mais vezes. Regressaste há muito?
- Pouco mais de três meses. E provavelmente o único local que ambos frequentamos, é o supermercado. Não me encontrarás em locais noturnos, só saio à noite quando estou de serviço no hospital.
- Também não frequento esses locais.
- Não? Não deve ser por falta de convites, - disse mordaz
Ela lançou-lhe um rápido olhar e virou a cabeça para olhar a rua por onde circulavam
- Este jantar, é a minha primeira saída noturna,- se é que se pode chamar noturna, quando o sol ainda brilha radioso,- desde há catorze anos.
Ele estacionou o carro junto ao restaurante. Ela abriu a porta, e saiu sem lhe dar tempo a que ele tivesse qualquer ato de cavalheirismo.
Colocou-lhe o braço sobre os ombros e entraram. Deu o nome ao empregado que os recebeu e ele levou-os até uma mesa discreta, de onde retirou um retângulo onde se podia ler, “reservada”.
Sentaram-se e logo apareceu outro empregado que colocou algumas entradas sobre a mesa, e lhes entregou a ementa.
Escolheram caldeirada de marisco acompanhada por um rosé Quinta Romaneira, e só depois que o empregado se retirou, Nuno perguntou:
- Porquê, Luísa?
- Porquê, o quê, Nuno?
- Disseste que eras muito jovem, querias viver a vida e no entanto casaste poucos meses depois. O que é que ele tinha de especial para mudares de ideia?
- Queres mesmo saber? Não achas uma perda de tempo, passados todos estes anos?
- Sim e não respondendo às duas questões. 
Às vezes precisamos escarafunchar na ferida, para retirar tudo o que não a deixa cicatrizar.
- Era muito nova, ainda nem tinha feito dezoito anos. Meu pai obrigou-me a romper contigo, ameaçando mandar-me para casa dos meus avós numa aldeia esquecida no Minho. Ele tratou do meu casamento com o Álvaro, e eu não soube como impedi-lo
- E não te ocorreu seres sincera comigo? Tu que juravas amar-me, não confiaste em mim para me dizeres a verdade? Que grande amor era o teu – disse amargo.
- Esqueces que eu era quase uma menina – defendeu-se. E não teria sido diferente. Eu era menor, precisava da autorização dele para me casar. Ele tinha cancro, sabia que tinha pouco tempo de vida, e tinha medo de que fosses para África e me levasses contigo. Tinha medo que eu tivesse uma vida de privações por causa do teu idealismo. Por isso me casou com um homem mais velho que ele conhecia há muito tempo e julgava que me faria feliz.
-E fez?
- Não. - A resposta saiu seca e rápida como um tiro.
A chegada do empregado com o pedido, interrompeu a conversa



ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XX



- Não te preocupes pai. Confesso que antes de saber o que acabas de contar-me, passaram pela minha cabeça desejos de vingança. Afinal sou humano, sofri muito, e durante todos estes anos, agarrei-me à ideia de que ela era uma leviana, que nunca sentiu nada por mim e só se tinha divertido à minha custa. Mas tu pintaste-me um quadro em que a minha ideia não se enquadra. E isso leva-me a repensar tudo o resto. A por em causa o meu desejo de vingança. Preciso descobrir, onde está a verdade.
- Gostaria que vocês se entendessem. Estás quase com quarenta e dois anos. Já cumpriste os teus sonhos, já viveste e sofreste demais. Parece que ela também deve ter tido a sua conta de sofrimento. Se assim não fosse teria voltado a casar. É uma mulher bonita, educada, e deve ter um bom pé-de-meia, uma vez que o marido era um homem rico. Nem um nem outro são crianças. Quem sabe não estão predestinados um ao outro? Pensa nisso. Já está na hora de deixares de ser um solitário.
- Já falámos sobre isso, pai. Sempre fui orgulhoso. Nunca me exporia perante uma mulher.
- Nem mesmo perante a Luísa?
- Dela menos do que qualquer outra. Rejeitou-me quando era jovem, bonito e…inteiro.
- É melhor pagar e irmos embora. Quando falas assim, lamento que não tenhas menos trinta anos. Porque a minha vontade é dar-te um bom par de  açoites.
Pôs-se de pé. Estava zangado. Não suportava ouvir o filho falar assim. Nuno colocou o dinheiro em cima da mesa, para pagar os cafés e seguiu o pai. Sabia que ele estava zangado, mas não podia fazer nada contra isso. Era assim que ele sentia, e não ia contra os seus sentimentos para agradar a ninguém, nem mesmo ao pai, que ele admirava e amava.
Fizeram o percurso de volta em silêncio, cada um submerso nos seus pensamentos.
Meia hora mais tarde, Nuno despedia-se dos pais e regressava à sua casa. Pegou no jornal e tentou ler. Sem sucesso. Sentia-se nervoso com a ideia de ir jantar com Luísa. A vida era como um filme muito estranho. Quando se levantou nessa manhã, nunca pensou que ia encontrar a jovem, que por causa dela o seu pai se tinha aborrecido com ele, e que daqui a umas horas ia jantar com ela. Olhou o relógio. Dezassete horas. Não era a essa hora que começava o famoso dérbi Benfica –Sporting em futebol? Ligou a TV e sintonizou o canal. O locutor, anunciava a formação das equipas.
Foi à cozinha buscar uma cerveja, e sentou-se no sofá. Só ia buscar Luísa às vinte. Tinha tempo de sobra para ver o jogo.


Hoje mesmo se Deus me ajudar, ponho em dia as visitas, já que os últimos dois dias foram um pouco atribulados com visitas de estudo . Bem hajam pela vossa paciência.
Bom fim de semana


Para os que gostam de exposições e vivem fora de Lisboa, 
aqui estou a mostrar "Do outro lado do espelho"

17.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XIX





O almoço decorreu com alguma animação por parte de Arminda, que adorava ter à mesa os seus dois homens, como ela costumava dizer. Filho único e tantos anos, afastado do país, Nuno sempre que tinha o fim-de-semana livre, ia almoçar com os pais. Adorava ver aquele brilho de felicidade nos olhos maternos.
Depois do almoço, pai e filho, deixavam-na entregue aos afazeres domésticos e iam até ao café, onde durante uma hora, tomavam o seu café e se entretinham numa amena conversa. Mais tarde regressavam a casa, viam um pouco de televisão, comentavam os casos mais noticiados da semana, e por fim, volta das cinco da tarde despedia-se e regressava a casa. Raramente saía à noite, embora naqueles dias de final de maio, com temperaturas a fazer lembrar o Verão já tão próximo apetecesse dar uma volta.
Não foi diferente naquele dia. Apesar da conversa trivial com a mãe, Nuno não conseguia esquecer o que o pai lhe contara e estava ansioso por estar a sós com ele, para tentar saber mais sobre aquele assunto. Porém não queria perguntar-lhe diretamente.
Desde criança sempre tivera uma grande ligação ao progenitor que soubera sempre impor disciplina, sem descurar o amor. Isso fizera com que além de pai, fosse amigo e confidente para o jovem. Mesmo agora, após tantos anos separados, e sendo ele já um quarentão, sentia uma grande admiração pelo pai e só confiava nele para falar do que lhe ia na alma.
O que o pai lhe contara sobre Luísa, não lhe saía da cabeça, e fazia com que se questionasse sobre as verdadeiras causas que levaram a jovem, a romper a relação que os unia. Seria o caso dela ter sido obrigada pelo pai? Podia ter acontecido já que ela era menor. Mas se assim fosse porque não confiou nele? Porque não lhe contou? Ele teria ido falar com o pai dela, teria lutado por eles, e pelo amor que os unia. Precisava saber a verdade. Ele sempre fora um homem justo. Se estava errado em relação aos factos do passado, não podia de jeito algum continuar com desejos de vingança.
- Estás muito pensativo hoje, - disse o pai quando se sentavam à mesa no café.
O empregado aproximou-se, e eles pediram apenas cafés. Depois, que ele se afastou, Nuno perguntou:
- Dissestes que dizem que a Luísa se atirou do carro. Porque é que que ela faria semelhante coisa?
- Talvez porque a primeira mulher de Álvaro Soromenho se suicidou com seiscentos e cinco, forte. Ele disse que o fez porque estava deprimida. Ora pouco antes da sua morte, a figura de Luísa assemelhava-se em muito à da falecida primeira mulher ele, por isso os vizinhos pensam que ela se tentou suicidar.  Havia tempos que ele dizia a toda a gente que a sua mulher estava com depressão. Depois, o condutor do carro que os seguia, disse que ela se atirou do carro, e que o mesmo saiu desgovernado para a outra faixa onde chocou com o camião. Foi isso que saiu nos jornais da época.
Interrompeu a conversa para corresponder ao cumprimento de um amigo. Logo que o amigo se afastou, retomou a palavra, com um aviso ao filho.
- Se não queres retomar a história onde a deixaste, esquecendo o que se passou pelo meio, tem cuidado Nuno. A vingança, é um pau de dois bicos. Acabamos muitas vezes por descobrir que a ferida que provocámos em nós, é superior à que provocámos no objeto da nossa vingança.



ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XVIII


- Conta-me o que sabes sobre a Luísa, pai.
- Em dezasseis anos nunca quiseste saber nada dela, nem mesmo quando eu te escrevi a dizer que tinha enviuvado. A que vem esse interesse agora? Encontraram-se?
- Há quase um mês no hospital. Era uma das professoras daquele autocarro de miúdos, lembras-te? De resto era quase impossível não a encontrar, já que está a morar na casa que era do pai, e portanto relativamente perto de nós.
- Há quase um mês? E só hoje te chegou a curiosidade? – Perguntou João, fitando o filho com curiosidade.
- Encontrámo-nos hoje no supermercado. Convidei-a para jantar.
- Olha Nuno, fui testemunha do teu sofrimento há dezasseis anos, quando ela te deixou. Nunca tinha visto alguém sofrer tanto por amor. Suponho que foi esse amor que te impediu de refazeres a tua vida, junto de alguma das mulheres que certamente conheceste, em todos estes anos.
- Não foi por amor, sim por ódio. Ela espezinhou os nossos sonhos, matou tudo o que de bom havia em mim.
- Sabes que não é verdade. Continuas a ser um bom homem, um idealista que a vida toda trabalhou em prol dos mais desfavorecidos. Isso é o que de bom havia e há em ti, meu filho. Depois, quantas vezes o ódio não é apenas uma máscara do amor?
- Não quero discutir os meus sentimentos, pai. Até porque hoje já não tem interesse, eu nunca mais posso aspirar ao amor de uma mulher, não seria capaz de olhar nos seus olhos e ver pena em vez de amor. Mas ainda não me disseste nada sobre ela.
-Desiludes-me filho. O que te aconteceu não te torna menos homem. Olha para ti. És ainda jovem, tens saúde, e és um excelente profissional. Não tens porque te sentires diminuído, nem temer sentimentos de compaixão, que só existem na tua cabeça.  Mas voltando à Luísa, o que sei, foi a Lucinda, a amiga da tua mãe que lhe contou. Como sabes ela é vizinha da jovem. Parece que o pai da rapariga, a obrigou a casar com um vizinho que tinha uma quinta, onde passava grandes temporadas. Depois de casada, foram viver para a quinta, e só vinha à cidade para ver o pai, que entretanto adoeceu com cancro, e morreu uns meses, depois. Só a vi uma vez durante esse tempo, e confesso-te que fiquei impressionado. Estava muito magra, pálida e parecia muito assustada. O marido não a deixava sozinha, estava sempre a seu lado. Ele era muito mais velho, já era viúvo, e dizem que morreu, porque a Luísa se atirou do carro em andamento, e ele perdeu o controlo do carro. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu, ele morreu e ela nunca contou a ninguém, pelo menos que a gente saiba.
- Não sei que tanto vocês têm para conversar. – Disse Arminda, a mãe de Nuno. E acrescentou. – O almoço está na mesa.




16.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XVII





 Enquanto esperava por ela depois de ter pago as suas compras, Nuno observava, o rosto delicado, os cabelos soltos, a figura esbelta. Não tinha dúvidas de que era uma mulher muito bonita. A jovem que ele amara, dera lugar a uma mulher em toda a sua plenitude. Era estranho que estivesse sozinha. Segundo o seu pai lhe dissera, ela estivera casada pouco mais de um ano. Seria que tinha amado tanto o marido, que não queria atraiçoar a sua memória? De qualquer modo isso não lhe interessava. Ele não a deixaria entrar na sua vida, não a deixaria saber do seu acidente, nem a deixaria saber que ele já não era um homem por inteiro.
Não, ele só queria vingar-se de toda a amargura que ela destilara na sua alma. Hoje era só o que lhe restava. Saborear a vingança.
Luísa acabou de meter as compras nos sacos, pagou e saiu.
- Não devias ter esperado. Estás a atrasar-te.
- Não tenho pressa. É sábado. Não tenho urgências este fim-de-semana. E não respondeste ao meu convite. Almoçamos juntos?
- Não posso mesmo.
- E jantar? Não me vais dizer que também não podes. Não estou a pedir nada de especial. Apenas um jantar de amigos.
-Está bem, - concedeu sem se atrever a olhá-lo.
- Há algum sítio da tua preferência?
- Não. Escolhe tu.
Tinham chegado junto do carro dela. Abriu o porta bagagens, e começou a arrumar os  sacos de compras.
- Às oito vou buscar-te. Mas tens que me dizer onde moras.
- Na mesma casa que vivia naquela época. A casa de meus pais.
- Está bem. Lá estarei às oito. Até logo.
Fez-lhe uma leve carícia no rosto, e afastou-se em direção do seu carro.
Luísa, ficou uns segundos a vê-lo afastar-se, depois entrou no carro e manobrou para sair do estacionamento e seguir para casa. Estava perturbada com o encontro. Nuno fora o único homem que amara, e era também o único,  desde a morte do marido, cuja aproximação não lhe provocava pavor.
Mesmo tendo passado catorze anos, e muitas horas de tratamento psicoterapêutico, ela ainda não se sentia muito confortável na presença do sexo oposto. Com Nuno as emoções que ela sentia, não tinham nada a ver com medo.  
Continuava a ser um homem bonito e com uma presença marcante.
Estranho, era não ter casado, pois adorava crianças, e ela lembrava bem dos  projetos que partilharam no passado. Uma casa com jardim, e espaço suficiente para criar três filhos.



Uma leitora reparou na alteração do titulo .  Os demais se repararam não comentaram.  O titulo anterior nunca me agradou, mas não queria repetir-me com um conto a ser publicado sem titulo.  Leram com atenção este capítulo? Que vos parece que se passa com o Nuno? 

15.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XVI



Três semanas mais tarde, no supermercado da sua zona, Luísa acabara de colocar um saco com cenouras, ao lado da alface, no carrinho onde já tinha outras compras, e dirigiu-se à bancada das frutas a fim de comprar maçãs. No momento em que ia a chegar, um homem que estava à sua frente, voltou-se para por no seu carrinho de compras, um saco com laranjas, e o seu coração acelerou ao ver que era Nuno Albuquerque.  Ele também a viu e esboçou um sorriso, que no entanto não iluminou os seus olhos escuros. 
Sem poder recuar, nem fingir que não o tinha visto ela cumprimentou-o:
- Olá, como estás?
- Bem. E tu?
- Também. – Tirou um saco e começou a por nele algumas maçãs. Pelo canto do olho, olhou à volta, procurando alguma figura feminina que pudesse ser a mulher dele, mas não viu ninguém.
-Costumas vir às compras aqui? – Perguntou ele, vendo como ela dava um nó no saco das maçãs, e as colocava junto das outras compras.
- É o que fica mais perto da minha casa. E tu?
- Estou na mesma situação.
Era estranho. Por razões diferentes, ambos gostariam de não se terem encontrado. Mas agora que o acaso, os juntou, nem um nem outro tinha vontade de partir. Ambos queriam saber mais do outro, mas ali estavam falando de trivialidades, sem se atreverem a fazer as perguntas que verdadeiramente lhes interessava. De súbito ambos esticaram a mão para agarrar uma caixa de morangos, e as mãos tocaram-se. Sentindo um tremor percorrendo-lhe o corpo, como se tivesse levado um choque elétrico, Luísa apressou-se a retirar a mão recuando. Como era possível que dezasseis anos depois, ele lhe provocasse semelhante reação?
Claro que Nuno percebeu perfeitamente a perturbação feminina. Arqueou uma sobrancelha num sinal claro de estranheza. Não era possível que ela se tivesse sentido perturbada com um simples toque, tantos anos depois. Ou seria? Se assim fosse era a oportunidade de ele se vingar. Seria interessante, seduzi-la e fazer com que se apaixonasse por ele, e depois deixá-la, como ela fizera no passado. Este pensamento fez com que um sorriso sedutor lhe iluminasse o rosto, enquanto lhe estendia a caixa de morangos.
-Toma. Eu tiro outra para mim. Estás muito bonita.
- Obrigado. Desculpa, tenho de ir. Já acabei as minhas compras.
- Eu também vou.
- Estás… sozinho?
- Estamos conversando, portanto estou contigo, - disse sorrindo. - Com quem achas que devia estar? Já sou grandinho para precisar de ama. E mesmo  acreditando que não te interesse, informo-te que não tenho qualquer compromisso, a não ser com os meus doentes. E tu?
- Também não.
- Então podíamos combinar alguma coisa. Queres almoçar comigo?
- Não acho que seja boa ideia, Nuno.
Chegaram às caixas, e entraram em filas diferente acabando assim a conversa.






14.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XV





A tarde desse dia passou-a no hospital com os seus alunos mas também com a outra professora, e os alunos dela.
Soube que a colega teria alta no dia seguinte, se até lá continuasse a não haver sinais do traumatismo craniano. Algumas das crianças, com ferimentos menos graves, que tinham ficado internadas por precaução estavam a ter alta nessa tarde, e em princípio ficariam só aquelas que foram submetidas a cirurgia. Seis ao todo, sendo cinco meninos da sua turma e uma menina da turma da colega.
No fim-de-semana, Luísa passou as tardes no hospital, principalmente junto de uma das crianças que tinha os pais emigrados, e vivia com os avós. Ela sabia das saudades que o pequeno tinha dos pais. Os avós adoravam-no, mas já eram idosos,  o avô tinha problemas de saúde e a avó não podia estar muito tempo no hospital, pelo que Luísa tomou a seu cargo a criança, como se fora um familiar.
Adorava crianças. Fora isso que a levara a escolher a profissão que tinha, pois depois da sua experiência matrimonial, não acreditava possível voltar a confiar num homem ao ponto de pensar em casar e em ter as suas próprias crianças. Há uns quatro anos ainda pensara em recorrer a um banco de esperma. Mas depois pensou que uma criança precisava de pai e mãe para se sentir completa. Ela fora criada apenas pelo pai, e sabia bem o que isso era. Então decidiu que não traria um filho ao mundo para viver a vida só pela metade.
Tinha um carinho especial pelos seus alunos. E talvez por isso, as crianças gostavam dela e se esforçavam para cumprir os objetivos impostos par cada ano.
Na segunda-feira, retomou as aulas, com as crianças ainda inquietas pelo susto que tinham passado e pela falta dos colegas ainda internados. Como Beatriz, a colega acidentada, ainda estava de baixa, apesar de já ter tido alta hospitalar, e como havia apenas duas turmas do terceiro ano, Luísa teve que ficar nesse dia com todas as crianças, o que lhe tornou o dia muito desgastante. Ainda assim, quando às dezasseis horas terminaram as aulas, foi direta para o hospital.
Não tinha voltado a encontrar o doutor Nuno Albuquerque, embora soubesse pelos miúdos que os ia ver todos os dias. Inicialmente tinha receio de voltar a encontrá-lo. Porém depois percebeu que ele estava ou nas urgências ou no bloco operatório, ou nas consultas externas. Só ia à enfermaria para a visita diária, e isso era sempre de manhã, fora de horas de visita.
Não percebia o que se passava com ela. Se por um lado receava encontrá-lo por outro desejava-o. Gostaria de poder falar com ele, saber como vivia, se tinha casado, se tinha filhos. Afinal, ele fora a pessoa que ela mais amara na vida, mesmo que ele pensasse o contrário. Sentir-se-ia melhor, se soubesse que não lhe guardara rancor, e era feliz.



O casalinho já está quase fino. Parece que teremos sido apanhados por uma virose que anda por aí. Não é hábito especialmente eu, sofrer destas coisas, mas talvez tenha influenciado o facto de termos feito na véspera a vacina. As defesas devem ter aberto alguma brecha. Mas tudo está bem quando acaba bem, não é mesmo? Obrigada a todos.




13.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XIV







- Queres contar-me o que se passa? Ou preferes ir logo ao consultório?- Perguntou Fátima depois de terem sido atendidas e já prestes a degustar o seu bife. – Se calhar devíamos ter escolhido um local, menos barulhento.
Fátima era pouco mais velha do que Luísa. De estatura média, muito morena, de olhos escuros e cabelos castanhos. Tinha um olhar que inspirava confiança, um sorriso simpático, e uma figura um pouco cheia.
-Tive um pesadelo aterrador esta noite, - disse Luísa sem levantar a voz, mas inclinando-se para a frente
- Com o falecido?
-Sim.
- Há muito que não tinhas esses pesadelos, pensei que era uma fase ultrapassada. Vejamos, terá sido pelo acidente do autocarro? Lembraste-te do teu acidente? Ou aconteceu alguma coisa especial que possa ter despoletado no teu subconsciente uma emoção relacionada com o passado?
- Encontrei o Nuno?
- Nuno? O teu primeiro amor?
Assentiu com a cabeça.
-Bom, o Nuno nunca foi violento contigo, verdade?
- Claro que não. Foi o homem mais amoroso que conheci em toda a minha vida.
- Isso não é difícil pois não? Se bem me lembro, conheceste três. O teu pai, o teu marido, e o Nuno Albuquerque.
Calou-se, enquanto saboreava um naco do bife.
- E então? Encontraste o Nuno. Como e onde?
- No hospital. Pelo que percebi, foi um dos médicos que tratou os miúdos. O que não admira pois pediatria é a sua especialidade. Descemos juntos no elevador. Pensei que não me reconheceria, mas não tive essa sorte. Deverias ver a indiferença com que me tratou. Foi como se nunca me tivesse conhecido antes.
- E isso doeu-te. Estou a ver. Tens noção de que ao vê-lo, o teu subconsciente trouxe à superfície o passado?
- Sim, creio que sim. Até porque no pesadelo eu era perseguida pelo Nuno que à medida que se aproximava se transformava no Álvaro. Penso que o meu subconsciente se sentiu ameaçado. Ele sabe que o Nuno é provavelmente o único homem no mundo capaz de acabar com a minha tranquilidade.
- Tens medo do Nuno, ou dos sentimentos que ele te despertam? 
- Dos sentimentos claro. Julguei que tinha esquecido, e bastou vê-lo para transformar todas as minhas certezas em dúvidas.
- Então amiga, não precisas de psicóloga nenhuma. Tu sabes perfeitamente as causas e a solução.
Tinham acabado a refeição. Descartaram a sobremesa e pediram café para as duas. Depois Fátima retomou a conversa.
- Sabes se casou? – Perguntou Fátima
- Como vou saber? Mal falámos. Mas acredito que sim, talvez com alguma colega. Não faz sentido, que o não tenha feito.
- Há mais coisas que não fazem sentido nesta vida, do que o contrário. Ainda o amas. 
Não era uma pergunta, mas uma afirmação. Luísa desviou o olhar, mas não foi suficientemente rápida, para que conseguisse esconder da amiga, a dor que escureceu os seus belos olhos.
Trouxeram os cafés que elas beberam em silêncio.
Depois Luísa pagou a conta e saíram. Despediram-se junto ao carro de Fátima.
- Não precisas de ir ao consultório logo. Mas podemos sair à noite, ir até um bar, beber um copo, ouvir um pouco de música. Ou ao cinema se preferires. Precisas de te distraíres. Há anos que vais de casa para a escola e da escola para casa.
- Hoje não amiga. Talvez para a próxima. Obrigada por estares sempre pronta para me escutares. Mesmo sem bata.
- Não é para isso que servem as amigas? – disse Fátima abraçando-a e entrando em seguida no carro.
Luísa ficou a vê-la afastar-se até que o automóvel se perdeu na rua. Só então deu a volta e se dirigiu ao seu carro.


Obrigada, pela vosso carinho, e desejos de melhores. Eu penso que estou quase boa, embora ainda tenha que continuar o tratamento até fazer os 5 dias. Graças a Deus o marido também está sem vómitos há  10 horas. 




ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XIII





Teve uma reunião com a diretora, mal chegou à escola. Foi-lhe dito que não teria aulas nesse dia, era sexta-feira, os alunos das duas turmas que seguiam no carro acidentado, estavam na maioria internados, e mesmos os feridos menos graves iriam às aulas apenas na segunda-feira. Depois ela passara o dia anterior no hospital, deveria descansar nesse dia. Luísa agradeceu, meteu-se no carro e foi para o hospital. Sabia que as visitas eram só de tarde, mas talvez lhe dessem alguma informação sobre a colega, que tinha ficado em observação, e as crianças que tinham sofrido ferimentos mais graves e tinham tido que ser operadas.
Meia hora mais tarde, saiu do hospital, com o coração mais sossegado depois de saber que estavam todos a recuperar bem.
O mês de Maio estava a caminho do fim, e o dia apresentava-se radioso, como costumam ser estes dias, já com a primavera a querer rivalizar com o verão que se aproxima.
Luísa respirou fundo, pôs os óculos escuros e seguiu a caminho do parque onde tinha deixado o automóvel.
Sem ser uma grande beleza, com os seus traços finos e delicados, o rosto orlado pela farta cabeleira, da cor do trigo maduro, que lhe tocava os ombros em suaves ondulações, a alta e esbelta figura, envolta num camiseiro de seda azul, e nas calças de ganga, com as sandálias de meio salto, chamava a atenção de quem com ela se cruzava, apesar dos óculos escuros que escondiam uns maravilhosos olhos azuis, tal belos, como a mais bela das safiras.
Entrou no carro, mas antes de o ligar, retirou o telemóvel da mala, e marcou um número
- Fátima?
- Olá Luísa, que surpresa! Não devias estar em aulas? Espera, ouvi falar do acidente com o autocarro de miúdos da tua escola. Eram os teus alunos? Estavas com eles?
- Sim. Eram duas turmas. Uma delas era a minha. E claro que estava com eles mas felizmente saí ilesa. Preciso de ti. Tens um tempinho para mim?
- Para a amiga, ou para a paciente?
- Podia ser para as duas?
- Quando? Hoje?
- Sim.
- Bom, que tal almoçarmos juntas? Depois se necessário marco-te uma hora para o início da noite. Tenho marcações para toda a tarde.
-Eu também preciso da tarde, para ver a minha colega e as crianças que estão internadas.
- Então onde nos encontramos?
- Já alguma vez almoçaste no mercado de Campo de Ourique?
- Já. Queres ir lá?
-Ainda não conheço. Estou curiosa.
- Então está combinado. Meio-dia e meia. Está bom para ti?
-Está. Encontra-mo-nos lá. E obrigada.
- Até logo.
Desligou o telemóvel e voltou a metê-lo na mala. Olhou o relógio. Onze e vinte. Ainda tinha tempo de ir fazer algumas compras. Uns mimos, para as crianças internadas. Ligou o motor e rodou para a saída do parque.



Nota, depois de um dia em que de cada vez que acordava, não conseguia estar mais que dez minutos acordada e caía no sono de novo, acordei hoje às 5 da manhã a sentir-me bem. Entretanto o marido começou ontem à noite com vómitos. Parece que será a mesma coisa, vamos ver o que diz o médico.  



12.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XII


Luísa encontrava-se no meio de uma floresta desconhecida. Há horas que tentava sair dali e ia parar sempre no mesmo sítio. Ficava com a sensação de que andava em círculos. Estava cansada e aterrorizada. De vez em quando, chegava até ela um som de passos. Amedrontada, recomeçava a correr, na busca de uma saída. Sentia que o mato lhe rasgava a roupa.  Alguns espinhos cravavam-se-lhe na carne infringindo-lhe uma dor terrível. Mas não podia parar. Sentia que quem a perseguia estava cada vez mais próxima. Numa clareira olhou para trás e reconheceu o homem. Era Nuno Albuquerque, com a sua bata branca e o estetoscópio ao pescoço. Cansada, parou para o esperar. Mas então à medida que ele se aproximava, o seu rosto foi-se transformando, a bata branca desapareceu, o estetoscópio transformou-se numas tiras negras, e o rosto abriu-se num sorriso odioso quando levantou a mão com o cigarro aceso. Gritou alucinada, e acordou com o rosto banhado em suor, e o corpo a tremer.
Saiu da cama e dirigiu-se à casa de banho. Despiu a camisa transpirada que meteu no cesto da roupa para lavar, abriu a torneira e meteu-se no duche.  
Deixou que a água lhe percorresse o corpo, enquanto pensava que tinha de telefonar a marcar uma hora com a psicóloga. Há mais de cinco anos não tinha pesadelos com o falecido marido. Parecia que tinha conseguido ultrapassar aquela fase da sua vida, afinal ele morrera há catorze anos. Mas o pesadelo daquela noite não agoirava nada de bom. Lembrou de como eram aterradoras as noites de pesadelo que sofreu durante anos, Do acompanhamento psicológico da doutora Fátima, e até de duas consultas com um psiquiatra. Na verdade o medo dos pesadelos era tão grande que só conseguia dormir à base de soníferos. Por fim, os medicamentos e o acompanhamento psicológico acabaram surtindo efeito e os pesadelos acabaram. Porque teriam voltado agora? E porquê Nuno aparecia no pesadelo?
Terminou o duche. Enrolou o corpo numa toalha, ligou o secador e começou a secar o cabelo. Depois passou o hidratante no corpo e vestiu-se.
Dirigiu-se à cozinha e preparou uma taça de cereais, que engoliu de pé. Tinha tanto que fazer, e sentia-se tão nervosa.
Passou a taça por água e enfiou-a na máquina. Foi à casa de banho, escovou os dentes e o cabelo. Voltou ao quarto, fez a cama, pegou no telemóvel que estava sobre a mesa-de-cabeceira, verificou o estado da bateria, pegou na mala e saiu.
Ainda era cedo, mas como no dia anterior tinha deixado o carro na escola, tinha que apanhar o autocarro e não sabia quanto tempo ele demoraria a chegar ao estabelecimento de ensino.

Gente,  desculpem a minha ausência de ontem, Fui para o Hospital do Barreiro, pouco passava das quatro, com uma crise de vómitos incontroláveis. Saí de lá às 5 da manhã, depois de ter estado com soro, Pantoprazol, Primpéram e medicação para a tensão. Segundo a médica era uma virose, mas como quando eles não sabem o que é dizem sempre que é uma virose, não sei. O que sei é que ainda estou meio abananada.

11.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE XI





Entrou em casa, acendeu a luz e fechou a porta atrás de si. Despiu o casaco e jogou-o com displicência para um cadeirão na sala. Foi até ao bar e serviu-se de uma bebida. Sentou-se no sofá e cerrou as pálpebras. Mentalmente reviu a figura de Luísa. Já não era a jovenzinha que ele tanto amara, e que lhe destroçara o coração. Era uma mulher muito bela. O amadurecimento tinha-lhe dado um outro encanto. E apesar da raiva que o consumira durante aqueles dezasseis anos, a sua presença mexeu tanto com ele que teve de fazer um enorme esforço para aparentar uma naturalidade, tão falsa como ela própria. Namoravam há dez meses e ele tinha a certeza do seu amor. Recordou o dia em que a pediu em casamento. Os planos, para um futuro próximo. As juras de amor que ela lhe fizera. Parecia tão sincera, tão apaixonada. Ele estava tão feliz, que deixara de lado o sonho de ir para África. 
Uma semana foi o tempo que durou a sua felicidade. Uma semana e as juras de amor foram quebradas, com a desculpa de que era muito jovem. 
Devastado, com a atitude da mulher que amava, a tal ponto que estava disposto a renunciar aos seus sonhos, com a alma em farrapos, Nuno partiu para o Zimbabwe, onde esteve durante três anos. Foi lá que recebeu a carta do pai que lhe anunciava o casamento de Luísa, com um homem que quase podia ser seu pai. Não tinham passado nem seis meses depois da sua partida. Amaldiçoou-se pela dor que sentia, por não conseguir esquecê-la. E fez uma jura a si próprio, de que mulher alguma no mundo ia voltar a ter poder sobre ele. Nunca mais ia deixar que o seu coração se prendesse.
Integrado numa equipa de Médicos Sem Fronteiras, Nuno tinha chegado a Chitungwiza, nos subúrbios de Harare, a capital do Zimbabwe. Da mesma equipa, fazia parte a doutora, Helena Santos, que desde o início mostrou sentir grande atração por Nuno, apesar de ele nunca ter demonstrado qualquer outro sentimento que não o saudável companheirismo de dois colegas de profissão. Apesar disso Helena mantinha esperança. De tal modo que quando a missão do grupo acabou, e Nuno decidiu ficar, ela fez o mesmo, talvez pensando que acabaria por o conquistar.
Nuno continuou dedicado de corpo e alma às suas crianças, até que farta de esperar, Helena decidiu tomar a iniciativa e declarar-se ao colega. Sentindo-se incapaz de corresponder ao sentimento dela, Nuno despediu-se dos seus pacientes, e rumou ao Bangladesh, onde permaneceu durante dois anos.
Findo esse tempo voltou a África, tendo passado pela República Centro Africana, Eritreia, Burundi,  e Angola, para acabar por voltar ao Zimbabwe,  onde permaneceu até ao maldito acidente.
 Depois foi uma longa batalha consigo mesmo, até vencer as suas limitações e voltar a ser o médico, conhecido e estimado.
O acidente porém causara grande preocupação aos seus pais, que sentindo-se na reta final da existência , temiam não volta a ver o filho.
Daí, que quando se recuperou, se candidatou a um lugar no hospital em Lisboa, e se mudou, para um apartamento não longe da casa dos pais. E quando pensava que tinha enfim encontrado a paz de espírito eis que encontrava Luísa e com ela regressava todo o passado. A dor e o ódio, que o acompanharam ao longo de dezasseis anos.


10.11.17

ARMADILHAS DO DESTINO - PARTE X







O sol brilhava radiante no azul do céu, no dia em que Luísa teve alta hospitalar. Porém nem a beleza do dia, animava a jovem, que só de pensar ter de entrar novamente na casa onde vivera os últimos catorze meses, se sentia doente e sem forças.
Marta, a sua boa amiga Marta,fora buscá-la ao hospital, e convenceu-a a ir para sua casa uns dias até estar melhor.
Iriam as duas a casa de Luísa, e trariam o que ela precisasse para aqueles primeiros tempos. Luísa agradeceu. Na verdade ela já tinha pensado ir viver para a casa paterna, que pela morte do progenitor era agora sua, e pôr à venda a quinta e a casa de Álvaro. Mas precisava de ir buscar roupas e objetos pessoais,  à casa que partilhara  com o marido. Esteve  a viver na casa da amiga, até retirar o gesso do braço, e iniciar a fisioterapia. Depois regressou à casa onde vivera toda a sua vida até ao casamento.
 Pôs à venda os bens do falecido marido. Inicialmente tinha pensado doar todo o dinheiro com a venda, para instituições de caridade. Marta acabou por convencê-la a não fazê-lo. O dinheiro era dela, sofrera muito às mãos daquele  canalha, merecia cada tostão. Iria precisar de tratamento psicológico, durante sabe-se lá quanto tempo. Podia entrar para a Universidade, ou quem sabe montar um pequeno negócio. Era uma asneira desfazer-se do dinheiro, a vida estava cada dia mais difícil, ninguém sabia o dia de amanhã.
Como sempre, Luísa deixou-se levar pela lógica da amiga. Assim, matriculou-se na faculdade de letras, e entregou-se de corpo e alma aos estudos, apesar de não descurar o acompanhamento com a psicóloga, Fátima Candeia, com quem criou uma relação de grande amizade, que se estendeu ao longo dos anos, mesmo depois de Luísa ter terminado o tratamento, após mais de  três anos de consultas, mais ou menos regulares.
De resto Marta e Fátima, eram as duas únicas amigas de Luísa, que se fechou para todas as amizades e divertimentos próprios da idade. Ela só tinha um desejo. Acabar o curso e dedicar-se ao ensino, já que adorava crianças e com tudo o que passara, pensar em casamento, e em ter filhos seus, estava fora de questão. Fátima, explicara-lhe, que ela fora vítima de sadismo sexual, uma forma de parafilia, que consiste em que um dos parceiros, não obtém prazer da cópula, mas do sofrimento físico ou psicológico, que infringe ao outro. Também lhe disse, que quando a vítima não consegue fazer a denúncia que o leva à prisão, quase sempre a prática reiterada, leva a um descontrolo do sádico que acaba muitas vezes por matar a companheira. Apesar das muitas sessões de psicoterapia, ela sentia que nunca mais seria capaz de partilhar a cama com um homem. Então dedicar-se-ia com todo o seu coração, aos seus alunos. Eles seriam os filhos que nunca teria.
Os anos foram passando, ela terminou o curso, tirou a carta de condução e comprou um pequeno carro utilitário. Candidatou-se a uma vaga no ensino oficial e conseguiu entrar.
 Durante alguns anos andou de escola em escola, primeiro dois anos em Albufeira, depois em Beja, e em Viseu, até que no ano anterior, conseguira enfim um lugar numa escola perto de casa.
Por vezes, na solidão da sua casa, pensava em Nuno. Por onde andaria ele, como estaria? Por certo era feliz, já que trabalhar no meio dos desprotegidos da sorte, sempre fora o seu sonho. Mas teria casado? Teria filhos?
Tinham-se passado dezasseis anos desde que obrigada pelo pai terminou o namoro. Recordava o dia em que lhe dissera que pensara melhor, e decidira que era muito nova para enfrentar um casamento, queria desfrutar da juventude e divertir-se.
Ele levantou-lhe o queixo e obrigara-a a olhar para ele, pedindo que repetisse o que acabara de dizer, olhando-o. Sentindo-se a morrer de tanta dor, ela repetiu cada palavra sem desviar o olhar.