28.5.17

JOGO PERIGOSO- PARTE VIII






Quando David regressou depois de almoço, já encontrou a jovem na sua secretária. Trabalharam toda a tarde, com a jovem a mostrar o balanço dos últimos meses, as notas de encomendas, e tudo o que David quis ver e saber sobre o funcionamento da empresa. No fim, ele perguntou:
-Há quantos anos, a Daniela está à frente da empresa?
- Oficialmente desde há seis anos, mas na verdade, desde que meu pai adoeceu há oito anos que tomei conta da gerência da empresa. Porquê?
- Curiosidade. Na verdade, o Daniel nunca me disse que tinha uma irmã, até ao momento que me propôs a compra da sua parte na fábrica. Penso que tem feito um bom trabalho. Devemos estudar as possibilidades de aumentar a produção, a fábrica é ampla, está subaproveitada. Vejo que não está em condições de comportar a compra de uma nova máquina, neste momento. Eu posso comprar uma, ou até duas, em troca de digamos dez por cento da sua parte.
Ela fulminou-o com o olhar.
- Sem discussão. Continuamos como estamos. Se quer os tecidos, para as suas coleções feitos aqui, e as encomendas que temos em carteira, não o permitem, o interesse nas novas máquinas é seu. Logo se comprar as máquinas, elas trabalharão em exclusivo para as suas coleções, e essa será a contrapartida. Pagará os empregados, que nelas trabalhem. Terá parte da fábrica a trabalhar para si, sem pagar instalações. É a minha contra proposta.
- Como assim? Mas não somos sócios em partes iguais?
- Sim. Da fábrica como está, e de tudo o que ela produzir. Se vai investir em máquinas e eu não vou participar, é justo que essa parte seja de sua inteira responsabilidade.
Ele franziu a testa. Aquela mulher, tinha uma vontade férrea e sabia bem o que queria.
-Bom, vou pensar no assunto, logo que tenha contactado a fábrica, saiba quanto custa cada máquina e quanto produzem. Na altura certa voltaremos ao assunto. Entretanto, ficará tudo como está, em tudo até na gerência, pois estou certo de que o faz com muito acerto. Passarei por cá quando me for possível, ou quando precise de algo que requeira a minha assinatura. Deixo-lhe o meu número pessoal, ligue-me quando precisar.


27.5.17

JOGO PERIGOSO -PARTE VII





- Tem razão David. Na verdade, o único culpado disto tudo, é o meu irmão. E já que não podemos alterar os factos, é lícito que o ponha a par de tudo o que se passa. Disse que vai mandar trazer uma secretária. Enquanto ela não chega, podemos ver as instalações. Está de acordo?
Uns minutos antes, parecia uma leoa prestes a atacá-lo, agora aparentemente estava calma. Aquela mulher era surpreendente. Sorriu
- Vejo que percebeu a situação. Na verdade, a secretária deve estar a chegar, disseram que a entregariam às onze horas. Vamos então ver a fábrica agora?
Ela avançou para a porta. Vestia um fato de calça e casaco azul- escuro, e um lenço de seda em tons de azul e cinza ao pescoço. O cabelo estava apanhado, e nos pés usava sapatos de meio salto pretos. Habituado a lidar com mulheres bonitas, David não teve dificuldade em catalogar Daniela como uma bela mulher. Seria casada? Não usava aliança, foi a primeira coisa em que ele reparou, logo não devia ser. Porque é que Daniel nunca lhe tinha falado nela? Afinal eram amigos há quase dez anos. No escritório, Daniela, reuniu as empregadas, Madalena e as outras duas mulheres mais jovens, e apresentou-lhes David, informando que ele era agora seu sócio, e portanto, igualmente dono da empresa. Depois seguiram para a fábrica. Ele ia observando tudo, atento ao que ela lhe explicava. Vendo que uma máquina estava parada, ele quis saber porquê e ela explicou que estavam à espera da peça para ser reparada.
Então Daniela chamou Bruno e apresentou-lhe David, informando-o, sobre a sua posição dentro da empresa.
Depois passaram pela secção de embalagem, passaram pelo armazém e por fim regressaram ao escritório, quando os empregados acabavam de colocar a nova secretária no gabinete que até aí fora só dela. 
- A fábrica é grande, suporta com facilidade mais duas máquinas, - disse ele, mal ficaram sós. Com elas podíamos ter uma produção bem maior.
- E verdade. E então agora com aquela máquina parada, para entregar a encomenda que está a ser embalada hoje, o pessoal teve que trabalhar por turnos. Mas aquelas máquinas comportam um grande investimento…
-Calculo que sim. Mas não me importo de investir na compra das máquinas, se em troca passar a ter os tecidos para a confecção das minhas coleções, feitos aqui, a tempo e horas. - Olhou o relógio e acrescentou. – São horas de almoço. Continuamos de tarde?


JOGO PERIGOSO - PARTE VI


Sentou-se na sua frente.
- Diga-me senhor Ribeiro, quais as suas intenções, ou planos que o levaram a comprar ao meu irmão, a metade desta empresa?
Ele inclinou-se para a frente, apoiou um braço na secretária sem deixar de olhar para ela.
- Senhor Ribeiro? Não lhe parece despropositado, dadas as circunstâncias? Parece-me que está zangada com o facto de eu ser o seu sócio a partir de agora. Mas se assim é, deve conversar com o seu irmão. Como deve saber, tenho uma firma de confecções por catálogo. Estou sempre em busca de novos tecidos, novos padrões. O meu catálogo, é um sucesso, vende imenso. Há muito tempo que ponderava, a compra de uma fábrica de tecelagem como esta. O oferecimento de venda por parte do seu irmão, veio ao encontro dos meus desejos. Claro que acalento o sonho de me vir a tornar o único dono. Estou disposto a pagar o que pedir pela sua parte, dentro da razoabilidade.
Daniela pôs-se em pé. O rosto corado, os olhos brilhantes, o seio arfando, pela ira. Estava tão bonita, que o homem semicerrou os olhos, tentando esconder a sua admiração.
- Está doido! Não vendo, nem morta. Esta firma sempre foi da minha família. E vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para recuperar a parte, que o irresponsável do meu irmão lhe vendeu, senhor Ribeiro.
- Bom, - disse ele com uma calma irritante, -sendo assim, seremos eternamente sócios, já que ambos somos movidos pelo desejo de posse. Então, vou mandar colocar neste gabinete outra secretária, e vou trabalhar aqui sempre que possível, já que como disse, tenho outros negócios que também requerem a minha presença. Pode continuar a usar esse tratamento ridículo de senhor Ribeiro, se isso lhe agrada, mas desculpar-me-á que a trate apenas por Daniela. Tenho o dia livre, de modo que vou mandar trazer a secretária, agora mesmo, e espero que disponha de tempo para me pôr a par de tudo o que se passa na fábrica. Preciso saber como estão as encomendas, e prazos de entrega, já que preciso de um novo padrão de tecido para o próximo catálogo e quero saber se é possível ser feito aqui, ou se tenho de recorrer à fábrica com que costumo trabalhar.
Fez uma pausa, enquanto a olhava fixamente. Ela susteve-lhe o olhar, sem pestanejar, num claro desafio, que o deixou surpreendido. Retomou a palavra
- Espero que cheguemos a um entendimento, não é agradável trabalhar em clima de guerra, mas se for essa a sua posição, acredite que não costumo fugir das contrariedades.
Levantou-se. À jovem pareceu ainda mais alto do que quando entrara no gabinete e o vira de costas. Não se parecia nada com o playboy que aparecia nas revistas. Aquele homem tinha uma personalidade forte, e uma grande dose de autoconfiança, o que o levava a ser um adversário temível. E fora bem claro nas suas intenções. Tinha que ir com cautela, ou a sua vida daí para a frente podia transformar-se num inferno.


26.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE V





Tinham passado oito dias desde que o advogado estivera no escritório, dando-lhe conta da cedência de quotas do irmão para o seu cliente e deixando-a de mãos e pés atados, já que o irmão que raramente ia à fábrica, tinha-lhe passado uma procuração e ela geria a empresa, com liberdade absoluta. Reuniam-se apenas uma vez por ano, para apresentação de contas e divisão de lucros nos anos em que os havia. Com a venda da sua parte, o irmão teria anulado a procuração, coisa de que ela não se apercebera, pois não precisara usá-la recentemente. Agora, para qualquer decisão que envolvesse investimento, tinha que esperar pelo novo sócio, e nem sequer sabia por onde ele andava.
Felizmente conseguira acabar a encomenda, a tempo, mas com aquela máquina parada, (segundo o técnico precisava de uma peça que tinha que ser importada,) tivera que pôr o pessoal a trabalhar por turnos, o que ia reduzir a margem de lucro da encomenda. Naquela manhã de terça-feira, acabara a sua volta pela fábrica, e dirigia-se ao seu gabinete, quando ao passar pelo escritório, Madalena a informou de que um cavalheiro a aguardava, precisamente lá. Dissera-lhe que era o novo sócio, e ela introduzira-o no gabinete. Soltou um suspiro. Finalmente resolvera aparecer.
Abriu a porta do gabinete. Um homem alto, de fato cinzento encontrava-se de costas junto à janela.
- Bom dia -. Saudou tentando não dar à voz a entoação agreste que advinha da sua raiva. Afinal de contas, o culpado daquela situação era o irmão, não o desconhecido.
O homem voltou-se. Calmamente. Quase com indolência. Um lampejo de admiração perpassou pelos seus olhos cinzentos, ao encarar a jovem. Encaminhou-se para ela.
- Bom dia. David Ribeiro- disse estendendo-lhe a mão
- Daniela Pinto,- apresentou-se retribuindo o cumprimento.
-Daniela? – Ele repetiu com estranheza
- É. Parece que os meus pais não primavam pela imaginação.
Ele esboçou um sorriso. Olharam-se por momentos fixamente. Como dois opositores estudando-se mutuamente. Depois ela disse:
- Sente-se. Temos muito que conversar.


25.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE IV




E agora ali estava ela, na ingrata incerteza de não saber o que ia ser dela, e do futuro duma empresa que sempre fora da sua família.
Nunca se tinha cruzado com o novo sócio, mas a sua fama de homem de negócios era tão conhecida, como o seu gosto por mulheres bonitas, que fazia com que não raras vezes, andasse exposto nas páginas das revistas cor-de-rosa, que por vezes desfolhava no cabeleireiro.
Que iria fazer com a empresa? Quereria geri-la? Ou deixá-la-ia nessa função, já que ninguém conhecia aquele negócio como ela?
Não. Com a sua fama de mulherengo, devia ser um machista, capaz de pensar que a única função das mulheres, era alegrar a vida dos homens.
Passou a mão pela testa. Doía-lhe a cabeça, de tanto pensar. Ainda se o advogado tivesse dito alguma coisa, sobre quando o seu representado se ia apresentar, se tivesse agendado uma reunião, pelo menos ela podia ter uma ideia do que ele pretendia. Mas nada.
Largara a “bomba”, e sumira.
Bateram à porta, e logo de seguida a secretária entrou. Era uma mulher de baixa estatura, um pouco roliça, de rosto afável, e sobretudo muito eficiente. Estava na firma desde o começo, vira crescer a jovem, por quem tinha um verdadeiro carinho, e era uma mais-valia para ela, que sabia poder contar com o seu apoio em qualquer situação.
- Está lá fora, o Bruno, encarregado da secção de tecelagem. Diz que a máquina, que foi arranjada o mês passado. está outra vez com o mesmo problema.
-Aquela máquina está a precisar de substituição urgente. E o pior é que nesta fase de transição, não posso tomar nenhuma decisão. Nunca vou perdoar ao meu irmão, pôr-me nesta situação. O novo sócio, não aparece, a encomenda tem que ser entregue sem falta para a semana, e eu não posso tomar nenhuma decisão.
- Quer que chame o mecânico que esteve cá da outra vez, para ver se ele resolve o problema?
-Faça isso Madalena. Vamos ver se resulta, pelo menos para acabarmos esta encomenda a tempo.
A secretária saiu e a jovem pegou na pasta de encomendas e começou a verificar as mesmas, e a comparar os “stocks” de fios, a fim de programar o trabalho seguinte.


24.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE III


Quando o pai morreu, já havia mais de um ano que Daniela estava à frente da empresa. O irmão desistira da sua ideia de ir para África por causa da saúde precária do seu progenitor. Mas quando ele partiu, voltou à ideia de deixar tudo e ir para África.
Uns meses antes tinha realmente tentado vender-lhe a sua parte da empresa. Ela recusara pensando que assim mantinha o irmão por perto. Era o único familiar que tinha, a mãe morrera ainda eles eram pequenos, e o pai fora pai e mãe dos dois. Daniela casara aos vinte e quatro anos completamente apaixonada. Mas para o marido, uma mulher apaixonada não chegava. Ele queria perpetuar-se na descendência. Ela não engravidava. Então começou a andar de médico em médico, de tratamento em tratamento, num calvário que durou quatro longos anos, ao fim dos quais todos os médicos eram unanimes em dizer que ela era estéril, e que o casal deveria procurar a adoção, como solução para o seu desejo de serem pais. O problema foi que Felipe não queria ser pai adotivo. Ele queria ser pai biológico. E assim resolveu pedir-lhe o divórcio, descartando-a como coisa sem préstimo.
Daniela ficou arrasada. Sofreu a desilusão, chorou a morte dos seus sonhos. Chorou dia e noite tudo o que havia para chorar. E depois levantou a cabeça e decidiu levar a vida pra frente. Dedicou-se inteiramente à empresa. Tinha trinta anos quando o pai adoeceu e deixou tudo nas suas mãos.
Um ano mais tarde o pai morreu deixando a empresa em quotas iguais para os dois filhos. E ela assumiu a direção e continuou o trabalho do pai, enquanto o irmão continuava a exercer a profissão, de médico. A medicina, e os seus doentes era tudo o que lhe interessava. Não se importou. Mergulhava no trabalho, era uma boa forma de esquecer a sua tragédia pessoal, e a sua descrença nos homens e no amor.
Uns meses atrás, o irmão tentara vender-lhe a sua parte do negócio. Precisava dinheiro para ir para África e montar um pequeno consultório, onde pudesse atender os mais necessitados.
Ela não levara muito a sério a proposta e tentara dissuadi-lo dessa ideia. Desde aí nunca mais soubera dele, até aquela manhã, quando o advogado do novo sócio a procurou com toda a documentação relativa à transação. 

23.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE II

Uma hora mais tarde, Madalena tinha conseguido estabelecer ligação com a Missão, e passava-lhe a chamada.
-Boa tarde. É possível falar com o doutor Daniel Pinto?
-Quem deseja falar com ele?
-É a irmã.
- Vou ver se ele pode atender.
- Obrigada. Por favor, diga-lhe que tenho urgência em falar com ele.
Pouco depois o irmão atendeu.
- Olá. Está tudo bem?
- Como está tudo bem? Como pudeste fazer-me semelhante coisa! Vendeste a tua parte no negócio da família a um desconhecido.
- Que querias que fizesse? Propus-te a venda, Afinal eras a principal interessada. Sabes que nem tenho jeito para os negócios nem eles nunca me interessaram. Tu não quiseste comprar a minha parte. E eu precisava dinheiro para realizar o meu sonho.
- Pensei que era o desejo dos nossos pais que o negocio fosse dos dois. Mas se me tivesses dito que a ias vender a um desconhecido, é claro que compraria a tua parte.
- Primeiro, só é desconhecido para ti. Para mim, é um amigo, de muitos anos, que me possibilitou a realização do meu maior sonho. Segundo, conheço-te o suficiente para saber que envidarias todos os esforços para me dissuadires e me afastares do que eu desejava.
-És um egoísta. Só pensas em ti. Como vou tocar para a frente a empresa com uma pessoa que não conheço?
- Sempre foste hábil a resolver problemas. Desculpa, tenho que desligar. Tenho mais de vinte pessoas à espera de consulta. Ainda que não acredites, amo-te maninha.
Desligou sem esperar resposta. Daniela ficou por momentos absorta, a olhar o aparelho. Depois lentamente poisou-o no descanso.
A empresa fora fundada por seu pai, que sempre pensou que um dia o filho iria continuar a sua obra. Mas Daniel desde cedo deu a entender que o seu negócio era outro. Ele queria ser médico, ir para África exercer a profissão entre aqueles que nada tinham. Pelo contrário a ela o mundo dos negócios sempre a fascinara. Não brincava com bonecas. Brincava de montar lojas e de comprar e vender coisas.


22.5.17

JOGO PERIGOSO - PARTE I


-Entre.
A porta abriu-se e a mulher que se encontrava de costas, junto à janela voltou-se e encaminhou-se para a secretária.
Cumprimentou o homem que acabara de entrar, e indicou-lhe uma cadeira. Passou a mão pela testa e perguntou:
- Então? Descobriu-o?
O homem, de meia-idade, baixo e calvo, apresentava-se bem vestido, mas parecia incomodado, como se não estivesse habituado a andar de fato e gravata em pleno mês de Julho.
- Sim. Segundo os meus contatos, o nosso homem encontra-se hospedado em Moçambique. Contactei a nossa embaixada, e tenho aqui todos os dados. Está numa Missão em Nampula. Tenho aqui todos os possíveis contatos, morada e telefone da Missão, bem como da Arquidiocese de Nampula, a que a Missão está subordinada, disse estendendo-lhe algumas folhas de papel.
-Muito bem. Por agora é tudo. No escritório dar-lhe-ão o cheque com os seus honorários. Entrarei em contacto consigo se voltar a precisar dos seus serviços.
Ele levantou-se e estendeu-lhe a mão, que ela apertou dando a reunião por terminada.
O homem saiu fechando a porta atrás de si. A mulher, jovem e bonita, vestia um fato de calça e casaco cinza, e prendia os cabelos escuros num coque no alto da cabeça. O seu rosto de traços suaves, tinha no momento um ar crispado, como se estivesse profundamente irritada, ou sob uma grande pressão.
Pegou nas folhas que o detetive deixara sobre a secretária e deixou-se cair na secretária, com um profundo suspiro.
Estendeu a mão e colocando os óculos leu as folhas. Quando acabou recolocou os óculos em cima da secretária, e premiu uma campainha.
Ouviu-se uma leve batida na porta e de seguida ela abriu-se para deixar passar Madalena, a sua secretária. A jovem estendeu-lhe a folha de papel.
- Veja se consegue entrar em contacto com essa Missão. Quando o conseguir passe-me a chamada. Se não o conseguir até à hora de saída, tente de novo amanhã. Preciso de entrar em contacto com alguém de lá com urgência.
- Vou já tratar disso, - disse a empregada


20.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXXI




Levantou o rosto e mergulhou o olhar naqueles olhos cinzentos que tanto a impressionaram desde o primeiro dia. E durante uns momentos permaneceu assim, lendo nos seus olhos a sinceridade do que lhe tinha contado. Por fim, aninhou-se nos braços dele.
Segurando-lhe o rosto ele disse:
-Tenho uma proposta para te fazer.
- Para passar as férias convosco?
- Não. A proposta é, aceitas casar comigo, sabendo que te ofereço de prenda de noivado, uma filha? 
-Preciso tempo para pensar, -disse brincando, para esconder a intensa emoção que se apoderou dela.
- Dez segundos chegam? – Perguntou ele, entrando no jogo.
Não esperou por resposta. Apertando-a contra si, disse, desta vez muito sério.
- Quero que fiques comigo e com a Matilde, o resto da minha vida, mas não como ama. Quero que sejas parte das nossas vidas, que sejas minha mulher, minha amante, minha companheira. Amo-te Beatriz, e vou amar-te todos os dias da minha vida. Prometo-te.
Ela não conseguia falar. Estava afogada pela emoção. Apoiou a cabeça no seu peito e chorou
-Não chores, querida. Não há razão para isso. – Murmurou-lhe ao ouvido
-Eu sei. Mas é que me sinto muito feliz.
-E choras sempre que estás feliz? -Perguntou soltando-lhe o cabelo.
- Não sei. Já não me lembro desde quando não me sentia tão feliz, -declarou com seriedade
César pensou que ela não devia ter sido feliz no anterior casamento. Mas não fez perguntas. Limitou-se a abraçá-la e a beijá-la com paixão.
Beatriz não se retraiu. Retribuiu o beijo de igual para igual, com toda a sua energia e necessidade, apertando o seu corpo contra o dele, de tal modo, que se o desejo fosse pássaro, sairia voando pela sala, tal como voaram as suas roupas, na ânsia de apagar o fogo que os devorava, ali mesmo no sofá da sala. Mais tarde, apaziguado o corpo, aquietado o coração, Beatriz pensava que César tinha chegado até ao mais íntimo do seu ser. Com a sua ternura, com o seu ardor, a sua vontade de lhe dar prazer. Cada carícia, cada toque dos seus lábios, ficara gravada a fogo no seu corpo e na sua alma. Ela tinha sido casada durante quase três anos, e só agora sabia verdadeiramente o que era fazer amor. Pensou que se Jorge fizesse amor com ela, daquela maneira, ter-se-ia sentido destroçada com a sua morte.
- Em que pensas? - Perguntou ele, acariciando-lhe o rosto
- No que aconteceu. César, não pensas que sou uma mulher fácil, pois não?
- Porque havia de pensar isso, Beatriz? És uma mulher jovem, saudável,  é natural que tenhas desejos como eu, ou qualquer outra pessoa. Se te julgasse uma mulher fácil, não me teria apaixonado nem iria casar contigo.
Fez uma breve pausa, durante a qual não deixou de olhá-la nem por um segundo. Depois continuou:
 Quero que saibas, que ficaria aqui contigo o resto do dia, mas minha querida, antes de vir, contei à minha família, que te amava, e vinha tentar convencer-te a casares comigo. E prometi-lhes que te ia levar para jantar.

Epílogo


Casaram no final do ano, na presença de todos os familiares.
Meses antes, César tinha conhecido Clara e Nuno. E não pôde deixar de sorrir, quando a jovem lhe disse, que sempre acreditou, que só se ele fosse cego, não se apaixonaria por Beatriz. E logo ali combinaram que ela e o marido seriam os padrinhos da noiva na cerimonia. Depois, durante as férias, estiveram em Lagos, onde César conheceu os futuros sogros. Ele gostou da afabilidade, com que os receberam, e eles ficaram encantados com a pequena Matilde, e trataram-na como se fossem os seus verdadeiros avós. E agora ali estavam, ele no altar, e a jovem caminhando para ele, pelo braço do pai. E era evidente a felicidade dos noivos, bem como da pequena Matilde, radiante no longo vestido rosa, muito compenetrada no seu papel de menina das alianças.

Fim


Elvira Carvalho

Esta estória termina aqui. Mas não fiquem tristes. Está a sair da forja um Jogo Perigoso, que espero vos agrade. A partir do dia 22



19.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXX


A mulher continuava em coma. Já tinham passado dez dias e os médicos continuavam com prognóstico reservado. Era como se a mulher, não sentisse vontade de viver, e o seu subconsciente, não soubesse se devia partir ou ficar. 
O homem sentiu que alguma coisa se fragmentava no seu peito, com a ideia de que ela se deixasse ir. Sentiu que se tal acontecesse, o remorso ia persegui-lo toda a vida. E então fez aquilo que o seu coração lhe ordenava. Pegou-lhe na mão e suplicou:
- Volta! Não te deixes ir. Por favor, preciso que voltes!
Assustado consigo mesmo e com o que sentia, saiu dali jurando não voltar. Não entendia o que se passava com ele, não achava normal, aquela obsessão por uma mulher, que não lhe saía da cabeça, ao ponto de relegar a memória da falecida esposa. Tentou concentrar-se na sua vida e no sofrimento da sua filha, mas uma semana depois não resistiu a telefonar para o hospital e sentiu uma estranha alegria, quando lhe disseram que aquela jovem tinha saído do coma e que estava a recuperar. 
Convencido que o seu desejo de saber que estava bem, era apenas a vontade de libertar o remorso, pelo seu desejo inicial de vingança, pôs um ponto final naquela estória e dedicou-se de corpo e alma ao trabalho e à filha, que teve de tirar do infantário, pois com a morte da mãe, ela regredira imenso, tinha começado com pesadelos, voltara a fazer xixi na cama, fazia grandes birras e no infantário tornou-se agressiva com os coleguinhas. Com a ajuda da avó a criança ficou um pouco mais calma, mas os pesadelos persistiam.
O homem, quase tinha conseguido esquecer a imagem daquela mulher, quando uma das suas empregadas se despediu e ele pediu ao centro de emprego, candidatas para a substituição. E adivinha quem era, a primeira candidata a aparecer para a vaga.  Ele ficou impressionado. Como era possível, que entre centenas de mulheres inscritas no Centro de Emprego, logo lhe tinham mandado aquela?
Seria obra do destino? Ele não sabia. Mas vê-la ali, na sua frente, despoletou nele um imenso desejo de a conhecer melhor. Saber que tipo de pessoa era na realidade.  A avó da menina, esperava outros netos e tinha de se ausentar em breve. Ofereceu-lhe o lugar de ama da sua filha. Um mês decorrido a menina, deixara de ter pesadelos, e estava de novo feliz. E ele descobriu que ela era uma mulher maravilhosa e apaixonou-se por ela.
As lágrimas rolavam silenciosas pela face de Beatriz. A vida tem estórias que o mais louco dos romancistas não se atreveria a escrever.
Ele abraçou-a com carinho. Com os lábios secou as suas lágrimas, como se ela fosse uma criança.
- Pára de fugir e de te sentires culpada! Primeiro, porque não eras tu quem conduzia o carro naquele dia fatídico, segundo, porque perdeste infinitamente mais do que eu. Os caminhos do destino são sem dúvida misteriosos e eu acredito que os nossos tinham que se encontrar, para seguirem juntos daqui para a frente.


OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXIX


-Senta-te. Vou contar-te uma estória. Outrora dois jovens, enamoraram-se e casaram. Ela era professora, ele publicitário. Ele era jovem e estava muito apaixonado. Ela tinha dois amores. Estava tão apaixonada por ele, como pela sua carreira. E a vida de professora não é fácil no nosso país. Durante anos foi colocada em escolas longe de casa, passava a semana toda fora, só vinha a casa aos fins-de-semana, ou de quinze em quinze dias. Ele sentia a solidão, desiludia-se, não era aquela a vida com que tinha sonhado. O amor arrefecia e começava a questionar-se. Não estava preparado para viver uma vida inteira assim. Então decidiu que era tempo de discutir a relação e decidir o futuro. Conversaram, ele não queria continuar a viver daquela maneira, impôs condições, e ela compreendeu as suas razões. Deixou o ensino oficial, e aceitou ser professora no ensino particular num colégio perto de casa. Pouco tempo depois ficou grávida. Teve uma menina. Durante quase dois anos esteve sem trabalhar, mas não era a mesma. Definhava dia a dia. Ela não sabia viver longe das aulas e do ensino. Penso que se tivesse de escolher entre a profissão e o casamento, optaria pela profissão. Procurou um infantário para deixar a filha e retornou à escola. Naquele fatídico dia de Dezembro, ela vinha de uma reunião por causa das notas, do primeiro período quando foi abalroada por um carro em alta velocidade, e contramão. Teve morte imediata. O marido ficou doido de dor e raiva. Procurou saber quem tinha provocado o acidente, jurou vingança. Soube que o condutor do outro carro morrera igualmente no local. Mas ele não ia sozinho. Ia uma mulher com ele. Cheio de ódio, o homem procurou essa mulher. Só pensava em vingança. Foi ao hospital, fez-se passar por irmão dela, conseguiu informações. Disseram-lhe que chegara em perigo de vida com uma hemorragia interna, que tinha perdido o bebé, que  fora submetida a uma cirurgia de urgência, estava em coma e com prognóstico reservado. Atendendo ao facto de ter dito que era irmão dela, deixaram-no vê-la por breves minutos. A visão do sofrimento daquela mulher, de rosto lívido, o cabelo espalhado na almofada, os cateteres, a sonda, a máquina de suporte de vida, toda aquela parafernália de tubos que a envolviam, aplacou a raiva do homem. Saiu dali desorientado, sentindo-se um monstro. O que tinha pensado era uma insanidade. Aquela mulher perdera, além do marido, um filho, e podia até morrer. Pensou, que tamanho teria o seu sofrimento se perdesse a sua filha e a raiva que o consumira, transformou-se em compaixão. Decidiu esquecer a mulher, dedicar-se à filha, tocar a vida para a frente.  Porém nos dias que se seguiram, não conseguia apagar da memória a visão dela abandonada e exangue no leito do hospital. Por isso uns dias depois voltou lá.
 Calou-se por momentos. Ela olhava-o espantada. Não conseguia articular palavra.


18.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXVIII







Sonhava que estava casada com César e estavam de férias os três, num local paradisíaco, onde César a fizera sentir-se mulher, em toda a plenitude da sua paixão. Acordou sobressaltada com a certeza de que estava irremediavelmente apaixonada. 
Tentando esquecer passara a manhã, nas limpezas. Depois tomara banho e almoçara. Arrumara a cozinha, e preparava-se para ir passar a ferro, a roupa da semana, quando a campainha tocou. Perguntou quem era. A resposta deixou-a desconcertada. Olhou para si. Tinha vestido umas calças de ganga justas, e um top azul sem mangas. O cabelo comprido, apanhado no alto da cabeça, e os pés descalços. Adorava andar descalça, e em casa durante o tempo quente, andava sempre assim. Não estava propriamente vestida para receber visitas, mas não podia deixá-los à espera enquanto se arranjava. Abriu a porta e ficou surpresa. Não esperava encontrar César sozinho.
-Olá. Posso entrar?
- E a Matilde?
-Ficou em casa da tia com os primos e a avó. Tenho que ir buscá-la para me deixares entrar?
- Entra – disse desviando-se para ele passar, - pensei que vinham os dois.
- Não me atendeste o telefone ontem. Disse-te que tínhamos de falar, e parece que não me levaste a sério. E como precisamos fazê-lo, prefiro assim, tu e eu sem interrupções.
Não respondeu. Voltou-lhe as costas e entrou na sala. Foi até à janela. Não queria olhar para ele. Tinha a certeza que estaria mais corada que pimentão maduro. Disse:
-Não há o que falar. Tu e eu, não temos nada em comum, a não ser o facto de sermos os dois viúvos, e o amor que temos pela Matilde.
Aproximou-se dela, rodeou-lhe a cintura e fez com que se virasse. Os olhos cinzentos mergulharam nos dela.
-És capaz de repetir isso, olhando-me assim? É claro que não, - disse quando ela desviou o olhar. Sei que te sentes tão atraída por mim, como eu por ti.
- Atração, não é amor. Os desejos do corpo, não são sentimentos. E não se pode pensar numa vida em comum baseado nisso.
- É claro que não. Mas a atração e o desejo, fazem parte do amor que sinto por ti.
-Não acredito, que se esqueça um grande amor, em tão pouco tempo. Berta, disse que amavas muito a tua mulher.
-É verdade. Amava, no passado. Laura está morta e o passado, enterrado com ela. Resta uma terna recordação, que me vai acompanhar toda a vida. E uma filha que muito amo. Tu e eu estamos vivos.
Inclinou-se para a beijar. E estava quase a fazê-lo quando ela colocou a mão espalmada entre os dois e disse quase num sussurro.
- Não pode ser! Eu sou culpada da morte dela!
E sem se poder conter, escondeu o rosto entre as mãos e deu livre curso às lágrimas.
O homem não pareceu surpreendido. Esperou em silêncio que se acalmasse. Depois pegou-lhe na mão e puxou-a para o sofá.



Quero agradecer a todos os amigos que vieram ao Sexta durante a minha ausência. Que acompanharam esta estória embora alguns já  se mostrem cansados, pelo que ver se me lembro de deixar as próximas estórias mais curtas. De qualquer modo a história está quase a acabar, estando prometida para amanhã uma surpresa.
Mais uma vez  Muito obrigada a todos


17.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXVII




Quase nem jantara. Não conseguia pensar noutra coisa, que não na conversa dessa tarde. Há seis meses atrás quando saíra do hospital, era capaz de jurar, que não queria saber de homens nem de relacionamentos amorosos, nos próximos anos. Três meses depois, conheceu César e a menina. E naqueles três meses as barreiras foram caindo. E não podia ser. É verdade, que a simpatia dele, a gentileza com que a tratava, a confiança que punha nela, foi calando fundo no seu coração. Que já se surpreendera a pensar que pareciam uma família, e como seria bom se isso fosse realidade. Mas não sonhava que ele estivesse interessado nela. E francamente custava-lhe a crer, no contrário. Se era apaixonado pela mulher, e se o acidente fora pouco antes do Natal…
Não podia ser. O mais certo, era ter pensado, que dado o carinho que ela e a filha partilhavam, seria a pessoa certa para fazer o papel de mãe da menina.
Mas isso não chegava para um casamento feliz. E ela já tinha a sua quota de experiência, num casamento falhado.
Tão perdida estava nos seus pensamentos que se assustou com o toque do telemóvel. Era a mãe.
- Olá mãe. Aconteceu alguma coisa?
- Saudades, filha. Eu sei que estás a trabalhar há poucos meses, não terás férias este ano, mas não podias vir passar connosco um fim-de-semana?
- Não sei, mãe, talvez consiga ir uns dias em Agosto. Para a semana digo-te alguma coisa. Dá um beijo ao pai, por mim.
Desligou. Ainda tinha o aparelho na mão, quando tocou de novo. Nem queria acreditar. César? Nunca lhe ligara, sem ser quando estava com a menina.  Não atendeu. Falariam na Segunda-feira. Tinha que ordenar os seus pensamentos, analisar sentimentos. E depois? Dependendo do que decidisse teria que lhe contar quem ela era. Não podia, nem queria ter tal segredo a vida toda. Nunca seria feliz. Porque a vida havia de ser tão complicada? Porque tinha que arranjar trabalho exatamente naquela família? E porque é que ele havia de ser tão interessante? Talvez devesse despedir-se. Mas o pensamento de deixar Matilde, era insuportável. Era como se perdesse de novo o filho. Clara tinha razão. Ela bem que a avisara, que estava a transferir para Matilde, o amor que não pudera dar ao bebé.
Doía-lhe a cabeça de tanto pensar.




Mais logo estarei de volta se Deus quiser, e hoje mesmo visitarei as "vossas casas" 
Agradeço do coração, a todos os que tenham passado por aqui, nestes dias da minha ausência.

16.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXVI






Os três dias passaram sem nada de relevante, a não ser a secreta alegria que Beatriz sentiu quando ele regressou. E Julho terminou, numa Sexta-feira, e nessa noite César disse-lhe para ficar mais um pouco precisavam conversar.
- Consegui entregar, o último trabalho que tinha para este mês. Em Agosto vou fechar a agência, e vou de férias. Gostaria muito que viesses connosco, a Matilde gosta muito de ti, vai sentir a tua falta. E …eu também, - concluiu com um entoação que a fez enrubescer até à raiz do cabelo.
Engoliu em seco. Não podia. Cada dia se sentia mais atraída por ele, e viam-se tão pouco, como podia passar um mês na sua companhia?  Sem deixar de a olhar, como se exigisse nesse olhar uma resposta, aproximou-se dela.
- Podemos contar contigo?
- Será uma mudança do meu local de trabalho ?- Perguntou tentando impôr distâncias.
-Tens alguém que o impeça? Um namorado? – Perguntou ele, como se não tivesse percebido.
- Não. Sou viúva!
Não mostrou qualquer surpresa. Como se o soubesse. Ela não lhe tinha dito. E o cartão de cidadão não faz referência ao estado civil. Teria mandado alguém investigá-la? Decerto que sim. Era lógico, doutra forma como se explicaria que confiasse tanto nela? 
- E então? Os dois somos maiores, não temos ninguém a quem prestar contas. Deves ter reparado que me sinto atraído por ti. Vocês, mulheres, percebem isso. A minha filha já te conquistou. Será que me vais dar oportunidade de fazer o mesmo?
Aquilo era uma declaração? Se não era, parecia. Sentiu que lhe faltava o chão.
- Não pode ser. Não pode haver nada entre nós…
- Porquê? Há alguma razão lógica para isso?
Tinha levantado um pouco a voz, e Matilde que brincava com o seu ursinho, veio agarrar-se às calças do pai.
- Por favor César, não é o local nem a hora para esta conversa. Está na hora da Matilde jantar. E também se está a fazer tarde para mim.
Ele pegou na menina ao colo.
- Porque não jantas connosco? Continuamos esta conversa depois. É importante. Depois chamo um táxi para te levar a casa.
-Não. Falamos na Segunda.
E pegando na mala saiu apressada, como se fugisse dos seus próprios sentimentos.



15.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXV



Eram dezassete horas, quando chegaram ao apartamento de Beatriz. Matilde mostrava-se muito admirada, como se nunca tivesse passado pela sua cabeça, que a ama também tinha uma casa.
A jovem procurou no guarda fato, uma pequena mala, onde colocou algumas peças de roupa, o secador de cabelo e os artigos básicos de higiene. Depois, para satisfazer a curiosidade da menina mostrou-lhe a casa. Desculpou-se com o não se lembrar onde tinha a chave, para não lhe mostrar o quarto do bebé, que mantinha fechado desde que saíra do hospital. Não queria ouvir as perguntas da criança, nem ter de lhe dar explicações.
Eram quase vinte horas, quando César telefonou.
Quis saber se estava tudo bem, e ela respondeu que sim e disse que ia passar o telefone à menina.
Não ouvia o que o pai lhe dizia, mas ouvia a menina falar dela, e sem saber porquê sentiu-se incomodada.
Que se passava com ela? Porque é que ultimamente pensava tanto nele? Não podia estar a interessar-se por ele, conhecia-o há menos de três meses. Certo que foram meses em que se viram todos os dias. Mas quase não se falavam. Tudo o que ela sabia sobre ele, fora Berta que lhe contara. Por ela soubera que ele sofrera um grande desgosto com a morte da mulher. Deviam amar-se muito, por isso era normal que não procurasse outro relacionamento. Sorriu ao lembrar o que Clara lhe tinha dito numa conversa anterior “mulher, vocês estão no mesmo barco. Deviam remar juntos.” No mesmo barco estariam, mas não pelo mesmo motivo. Ele estaria por recordação a um grande amor, ela estava por desilusão. Nunca remariam para o mesmo lado.
- Bia, o pai quer falar contigo – disse a menina estendendo-lhe o telefone
- Estou…
Silêncio. Será que ele tinha desligado? Repetiu:
- Estou…
- Sim, tinha deixado de ouvir, julguei que a chamada tinha caído. Ligo amanhã antes de me ir encontrar com o cliente. E quero agradecer-te. Obrigado … Bia.
E desligou, deixando-a a olhar o telefone como se ele fosse um bicho raro. Bia? Porque é que a  chamara assim? Certo que a menina, a tratava por Bia desde a primeira semana. Mas ele? E agradecera-lhe. Que raio havia para agradecer? Ficar com a menina? Estava no contrato. Cuidar bem dela? Era a sua obrigação. Se ele soubesse, que ela estava implicada no acidente que o privara da mulher…


14.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXIV


Passou todo o dia a pensar nele. Havia pouco mais de dois meses que tinha começado a cuidar de Matilde. Cuidava dela, com todo o carinho, não só porque gostava muito de crianças, e tinha acabado de perder um filho, como porque desde que tivera a certeza de que a mãe dela morrera naquele fatal acidente provocado pelo marido, indiretamente se sentia culpada da orfandade da menina.
O pai, era um homem bonito, simpático, mas para ela era o patrão, e não podia pensar nele de outro modo.
Por outro lado, ela não pensava em qualquer homem como possível companheiro, a experiência com o casamento anterior, não lhe deixara desejos de repetir a dose. Tinha ficado vacinada.
Contudo sentia que havia qualquer coisa estranha entre ela e César. Ela não sabia exatamente o quê, mas sentia-o. Era como uma estranha energia que a  atraía para ele.  Talvez fosse a maneira como ele a olhava, como se houvesse uma dúvida permanente, entre a confiança com que tinha posto a sua casa e a sua filha, aos cuidados dela, e alguma coisa que ele temia, ou se recusava a aceitar. 
Como eram quase dez horas quando César se despediu da filha, nesse dia não houve passeio com a criança, tendo ficado a manhã confinada às habituais brincadeiras no jardim. Depois do almoço, e enquanto Matilde dormia a sesta telefonou à amiga.
Contou-lhe a novidade.
-Quer dizer que vais ficar aí três dias? Sem ires a casa?
-Não. Quando a Matilde acordar, depois do lanche, levo-a a passear, e vamos a casa. Preciso trazer roupas, e alguns artigos de higiene.
- Começas por levar algumas coisas e acabas por te mudar para aí.
- Não sejas tonta. Foi uma regra que aceitei, e que está no contrato.
- Não te amofines, estava a brincar. E ele? Tudo na mesma? Não arranjou namorada?
- Como queres que saiba? Sou apenas uma empregada.
- Uma empregada especial. Essa estória de te entregar a casa e a filha… será um teste?
- Já me estou a arrepender de te ter telefonado. Estás impossível hoje!
-Pronto, não digo mais nada. Mas posso pensar, não? Olha, vou fechar a loja uns dias em Agosto. Todos os anos nessa altura, é uma pasmaceira, ninguém compra nada, a loja só não leva o dia entregue às moscas, porque eu e o Nuno, estamos cá. Penso ir para Lagos. Olha, depois falamos, tenho agora aqui uma cliente.
-Vende muito. Adeus

13.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXIII


Um mês depois, a rotina estava instalada naquela casa e nos hábitos de Beatriz e de Matilde.
Obtida a autorização para sair com a menina dos limites casa-jardim, e aproveitando os dias de imenso calor que se faziam sentir, naquele mês de Julho, a jovem preparava um lanche e todos os dias saíam de casa pouco depois das nove e regressavam perto do meio-dia.
Iam ao parque, ou à praia, ao jardim zoológico, onde a criança adorava ver os animais, e onde foram várias vezes, visitando o jardim por fases, pois o tempo diário de que dispunham, era manifestamente insuficiente para ver o zoo.
Matilde parecia outra menina, estava alegre, e muito mais descontraída que há dois meses atrás quando Beatriz a conheceu.
Com o pai da menina, não tinha voltado a conversar, viam-se todos os dias, mas pouco mais falavam do que uma banal saudação.
Decerto a filha lhe contaria o que faziam ou por onde andavam, mas a Beatriz ele não fazia perguntas, e ela agia com a menina exatamente como agiria se  fosse sua filha.
Naquela manhã César, disse-lhe que precisavam conversar, e encaminhou-se para o escritório. Ela seguiu-o deixando Matilde com a cozinheira.
- Sente-se Beatriz. Chamei-a porque estou com um problema. Preciso viajar, e a minha irmã nega-se a deixar a minha mãe vir tomar conta da Beatriz. Não sei se sabe, ela teve gémeos, e está muito nervosa, diz que não consegue tratar dos filhos, sozinha. Sei que lhe falei na possibilidade de ter que ficar algum dia com ela de noite, e me disse que não havia problema. Mas não é uma noite. Serão duas, ou talvez três. 
- Não tem problema, eu fico com ela. Se o senhor confia em mim, ao ponto de deixar a sua casa e a sua filha à minha guarda, eu garanto que cuidarei delas como se minhas fossem.
Ele voltou a olhá-la daquele modo indefinido que a deixava perplexa. Depois disse:
- Se eu te confio a minha casa e a minha filha, não achas esquisito o  nosso tratamento cerimonioso. Trata-me por César. – E reparando no ar renitente da jovem acrescentou, - por favor.
- Como queiras, - respondeu.
- Vou preparar a mala. Ainda vou ao escritório assinar uns documentos e parto de seguida. Depois de amanhã à tarde, estarei de volta se tudo correr bem.



12.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO -PARTE XXII


Saía do duche quando o telemóvel tocou. Enrolou o corpo num toalhão, colocou uma toalha à volta da cabeça, em forma de turbante e preparava-se para ir atender quando o aparelho deixou de tocar.
Passou um creme hidratante no corpo e vestiu um pijama, composto de calção e top. Depois ligou o secador, e dedicou-se a secar o cabelo. Tinha cabelo comprido, forte e negro, que ultimamente, por causa do emprego, e também porque estava muito calor, usava sempre entrançado.
Tendo terminado, pegou no telemóvel para ver quem lhe ligara. Clara. Tinha ficado de lhe ligar na véspera e como saíra mais tarde, esquecera. Fez a ligação. Atendeu ao primeiro toque.
-Olá. Já ia ligar-te de novo.
-Desculpa não ter atendido. Estava no banho.
- Ficaste de ligar ontem e não o fizeste. E agora não atendeste. Já estava a ficar preocupada. Está tudo bem?
- Está. Ontem saí já depois das nove, o patrão saiu mais tarde para acabar um trabalho.
-O patrão faz serão e tu é que sais mais tarde? – Ironizou a amiga.
- Não sejas tonta. Sabes bem que só saio quando ele chega. Não posso deixar a menina sozinha.
- Estou preocupada contigo. Estás a apegar-te demasiado a essa criança. Eu sei, que devido aos acontecimentos anteriores, era previsível, mas receio que vás sofrer muito quando se separarem. Já pensaste que de um momento para o outro, ele pode decidir pô-la numa creche?
- Não me parece que o faça tão cedo.
- Mais uma razão. Quanto mais tempo, estiveres com ela, mais te vai custar depois. Os homens não ficam muito tempo sozinhos, especialmente quando têm filhos. Ele já demonstrou interesse por ti?
- Claro que não. Estás doida?
- Não sei porquê. És jovem, bonita, educada. E se ele não se apaixonar por ti, apaixonar-se-á por outra qualquer.  Quando menos esperares aparece com uma namorada. E achas que alguma vai aceitar uma mulher como tu perto do homem que ela quer? Arranja logo maneira de pôr a menina na creche e correr contigo.
-Não façamos conjeturas sobre o futuro; como diz meu pai, o que for há-de soar.
- Tenho medo por ti amiga. Já sofreste o suficiente com tudo o que te aconteceu. Mas deixemos isso. Conto contigo no sábado. Vamos até à Caparica. Há quase um mês que não te vemos.
- Sábado?
- Sim. E nem penses arranjar desculpa, ou vou aí buscar-te.
-Está bem. Mas basta ires buscar-me a Cacilhas. Mando-te uma mensagem quando estiver no barco.


11.5.17

OS CAMINHOS DO DESTINO - PARTE XXI





Fez o jantar enquanto Matilde dormia. Depois, da sesta, lancharam e durante mais de uma hora brincaram como se fossem duas crianças. À apanhada e às escondidas. Às seis horas, acabaram as brincadeiras, fez um sumo de fruta para a menina, que não quisera fruta ao lanche, deu-lhe banho, e estava a vestir-lhe o pijama quando Cesar chegou. Surpreendeu-se. Ainda não eram sete horas, e não ouvira o carro.
Abraçou e beijou a filha, ouviu o relato das brincadeiras que tinham tido, e depois disse-lhe:
- Agora vai brincar um pouquinho com os teus bonecos que o pai precisa falar com a Beatriz.
- Acabei mais cedo hoje o trabalho. Reitero os meus parabéns pelo trabalho que está a fazer com a minha filha. A Matilde, está mais alegre, deixou de ter pesadelos, e já não chora de noite, nem chama pela mãe.
- Não é minha intenção fazer com que esqueça a mãe.
- Acredito. 
-Peço-lhe que pense no que lhe disse, sobre ela precisar de estar com outras crianças. É muito importante para um correto desenvolvimento da sua personalidade.
-Se é melhor para ela, pode fazê-lo. Na verdade, ela já esteve num infantário. Minha mulher era professora, não podia cuidar dela, e nunca quis uma ama, pois também pensava que a menina precisava conviver com outras crianças. Mas quando ela morreu, a Matilde não entendeu a ausência da mãe, chamava por ela a toda a hora, só queria ir dormir, se a mãe lhe fosse contar a estória, fazia grandes birras, não queria ir à creche, tornou-se agressiva com as outras crianças. Estava desesperado, pedi ajuda à minha mãe, que se mudou para cá para me apoiar. E deixou o infantário. Mas um dia, quando for mais velha, e tiver superado completamente esta fase, vai voltar para lá.
Sentiu um aperto no peito. Adorava aquela menina. Não sabia se por se sentir indiretamente responsável pela sua orfandade, se porque transferiu para ela, o amor pelo filho que não chegou a nascer. Pensar que um dia, talvez não muito distante, se separaria dela, era algo insuportável.
César perscrutava o seu rosto. Viu a sombra que perpassava o olhar feminino, o rosto que empalidecia, os lábios trementes. O rosto dela, era como um espelho, onde se refletiam todas as emoções. Ele sabia como ela se tinha apegado à menina. E sabia porquê. Sabia muito mais dela, do que aquilo que ela poderia imaginar.
O silêncio que se seguiu, foi quebrado pela voz da menina:
- Bia, tenho fome!
- Vamos jantar, filha, - disse ele, pegando na menina ao colo. - Está na hora da Beatriz sair. A menos que queira jantar connosco claro.
- De modo algum. Preciso fazer umas compras- apressou-se a dizer.
Aproximou-se para beijar a menina, sentindo-se intimidada com a proximidade ao corpo masculino.