10.7.17

ROSA - PARTE XIII




                                          Foto DAQUI


Quando Rosa saiu do hospital, o padre que a tinha casado, arranjou-lhes um dos oito fogos, que ele próprio mandara construir para alguns dos seus paroquianos, que viviam em condições miseráveis. A casa ficava na vila, longe portanto da Seca, mas Rosa achou que lhes tinha saído a sorte grande. A casa, composta por uma boa cozinha, casa de banho e  três quartos, com água, luz e chão de tacos, pareceu-lhe um palácio. A vida do casal começava a melhorar. A filha mais velha foi servir para Cascais e só vinha a casa uma vez por mês. A segunda também foi servir para casa dum Sr. Doutor, lá mesmo no Barreiro. Dos três mais velhos, ficava em casa o rapaz que era muito frágil e que tinha sempre “uma ninhada de gatos no peito”. Ali na vila, Rosa arranjou algumas senhoras que lhe davam umas horas de trabalho para limpezas, ou passar a ferro e a vida parecia começar a equilibrar-se. Mas… foi nessa altura que João mudou. Andava macambúzio, perdera parte da sua alegria, olhava à volta com desconfiança e, de vez em quando, saía à noite. Às vezes, vinha cedo mas outras, só voltava de madrugada. Rosa começou a pensar que ele tinha arranjado uma amante.
Sentia que o chão lhe fugia debaixo dos pés e um dia fez-lhe a pergunta direta.
João irritou-se. Que ela estava doida, onde teria ido buscar essa ideia. Mas Rosa não ficou convencida. E numa noite, em que o marido voltou a sair, ela foi atrás dele. E viu quando ele se encontrou com mais dois e como andavam 
em silêncio, acautelando-se nas sombras. E viu quando um quarto homem chegou com uma pasta, da qual tirou uns papéis que distribuiu em silêncio. Escondida, viu como os homens espalhavam alguns papéis, protegendo-se sempre no escuro e sem trocarem uma palavra. Assustada, voltou para casa e meteu-se na cama. A tremer, esperou a chegada do marido. Ela já tinha visto alguns papéis daqueles no chão. Tentara até apanhar um, mas a vizinha impediu-a. Disse-lhe que eram papéis contra o governo, que os comunistas espalharam, e que se ela fosse apanhada com algum, seria considerada comunista e seria presa. O João podia ser preso? A frase martelava-lhe a cabeça e dava-lhe suores frios.
Quando João chegou a casa, achou a mulher estranha.
- O que tens, mulher? Aconteceu alguma coisa?
Ela respondeu com outra pergunta:
- Tu és comunista, João?
- Cala-te, - disse perdendo a cor. Nem em pensamento, ouviste, nem em pensamento, repitas isso.
- Então é verdade, - disse ela com a voz embargada pelas lágrimas. Mas porquê? Já passamos tanta fome, tanta miséria e agora que a nossa vida está bem melhor, é que queres desgraçar-nos.
-Tu não compreendes mulher. É nosso dever tentar que os nossos filhos não passem o que nós passamos.
- Mas… e se eles te prendem João?
 - Não te preocupes, nós temos cuidado. É verdade que há muitos “bufos”, mas também há muita gente do nosso lado.
Mas, desde aquela noite, e durante vários anos, Rosa nunca mais teve um minuto de sossego.


Continua


11 comentários:

Edumanes disse...

A Rosa achou que lhe tinha saído a sorte grande em ir viver para uma casa, composta por uma cozinha, casa de banho e três quartos, com água, luz e chão de tacos. Para quem antes vivia numa espécie de possilga. Só podia ter sido mesmo a sorte grande! O ciúme escangalha o casamento e a política escangalha amizades!

Tenha uma boa tarde amiga Elvira, um abraço,
Eduardo.

redonda disse...

Agora também fiquei preocupada que vão apanhar o João...

um beijinho

Emília Pinto disse...

E cá estou eu a recordar a história de Rosa, Elvira. Agora já sei o motivo que levou o João a casar com a Rosa, pois já não me lembrava. Um beijinho, amiga! Uma boa semana!
Emilia

Cantinho da Gaiata disse...

Ohhhh, então agora que a Rosa estava tão feliz, será que o João vai estragar essa felicidade?
Elvira por favor, quero um final feliz, please.
Beijinho grande amiga.
(Estou muito feliz, por nós termos cruzado)

maria disse...

Rosa, um livro que já li e reli... só passei para deixar mais uma vez parabéns Amiga e fico a aguardar a próxima história, Beijinho!

Tintinaine disse...

Cuidado que vem aí a PIDE.
Com essa gente não se brinca que eles são maus como as cobras.
Vamos lá ver se o João se safa!

Roaquim Rosa disse...

Bom dia
mas que grande volta vai com certeza dar esta historia.
a aguardar com ansiedade !!!
JAFR

Francisco Manuel Carrajola Oliveira disse...

Estou de acordo com o Roaquim isto vai dar uma grande volta.
Um abraço e boa semana.

Andarilhar
Dedais de Francisco e Idalisa
O prazer dos livros

Rui disse...

Os tempos horrorosos das perseguições políticas !
Pena que a CUF que tanto trabalho dava a tanta gente, viesse também a sofrer com isso, indirectamente ! :(
... Um dos grandes erros do nosso passado ! :(

Socorro Melo disse...


Que aflição, a da Rosa! E nem imaginava o tamanho do rolo em que João se metia!

Odete Ferreira disse...

Acabei de ler os últimos capítulos.
Muito interessante a introdução do ativismo clandestino na história, uma história alicerçada no conhecimento social e político da narradora.
Muito bem, Elvira!